segunda-feira, 13 de março de 2023

UM POR TODOS, TODOS POR UM - autor: Carlos Brandão de Almeida

 UM POR TODOS, TODOS POR UM 

Saúl, o velho Saúl, era o proprietário duma oficina de automóveis. Os seus amigos alcunharam-no, carinhosamente, de O Filósofo pois o mecânico destacava-se, na conversa com os companheiros, com sentenças assertivas, expondo os seus conhecimentos da vida e dos livros de maneira convincente. 

Saúl tinha um neto de onze anos – o João – que era, como vulgarmente se diz, a luz dos seus olhos. 

Um dia, o João visitou o avô na oficina e, contrariamente à sua proverbial alegria e jovialidade, vinha sorumbático  

O avô, estranhando aquele aspecto do rapaz, perguntou-lhe o que se passava com ele. 

O João, inseguro, fugiu à resposta para não intranquilizar o avô. Este, todavia, insistiu em saber o que é que apoquentava o seu neto. 

Imagens Uniao | Vetores, fotos de arquivo e PSD grátisAté que, dada a persistência do avô, o João acabou por esclarecer: 

- Ó avô, na verdade, eu estou muito revoltado com o treinador do clube por não me ter escolhido para jogar contra os matulões das Águias de Bernes. O avô sabe que eu sou bom jogador por isso não me conformo por ele me ter posto em “apanha bolas”. Acho injusto. Estou mesmo magoado. 

- Sem dúvida que és um bom praticante de futebol. Mas o teu treinador também é um técnico competente e tenho-o na conta de ser um homem justo. Provavelmente, ele considera que para jogar contra os “matulões” há outros jogadores mais adequados. Ele gosta muito de ti, eu sei. Vais ver que para o próximo jogo ele vai-te seleccionar. Também é correcto que sejam dadas oportunidades aos demais, não achas? 

Sabes uma coisa João: todas as tarefas são importantes dentro duma equipa. Se não houver rapazes a apanhar as bolas saídas do campo o jogo demora mais tempo, torna-se enfadonho e os jogadores cansam-se mais. 

E é também assim na vida: todo o trabalho - mais ou menos elaborado é meritório e todo o trabalhador deve ser respeitado. 

Vou-te dar um exemplo, se tiveres paciência para me ouvir. 

- Não estou aqui para outra coisa, avô. E fico muito agradecido por me ensinares. 

- Então, olha para o motor deste carro. Se alguma das peças que o compõem falhar, por mais simples que seja, o motor para e o carro deixa de andar. Entendes João? Lembra-te que se um órgão do corpo humano fracassar a pessoa fica doente. Todos as parcelas do corpo são vitais. 

O jovem fitou demoradamente para o olhar calmo e amoroso do avô, sorriu e agarrou-se à sua cintura. 

 

Esta trivial historieta vem-nos lembrar que, bastas vezes, desvalorizamos o trabalho indiferenciado, tão útil e necessário à comunidade. Preferimos eleger, para o palco da notoriedade, o labor especializado. 

A realidade tem-nos demonstrado, porém que, para que a obra se realize, é fundamental a participação de todos os obreiros, sejam mais, ou menos qualificados. 

Alguém sentenciou lucidamente que não nos devemos preocupar com o que está em cima da mesa, mas sim com o que está à volta dela. Tampouco avaliar uma prenda pelo que ela vale, mas antes pelo que ela representa. 

Não esqueçamos o esforço que alguém despendeu para termos uns sapatos ou um boné, provavelmente poderá ser equivalente ao que outra pessoa fez para possuirmos um telemóvel ou um computador. 

Uma vez recebi uma lição que nunca mais esqueci: dentro de um supermercado dirigi-me a um empregado que arrumava uma prateleira e perguntei-lhe onde é que poderia encontrar o artigo que procurava. A resposta foi respeitosa e exemplar: “Boa tarde, senhor!”. Ali estava uma pessoa e não um “robot”. 

 

              Carlos Brandão de Almeida  

22.01.2022 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

NO ENTRUDO VALE TUDO - NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL...

 

NO ENTRUDO VALE TUDO. NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL. (mas respeitinho é muito lindo, diziam na minha terra).

                                                                    por: Celeste Cortez 2023)




C
omo pré-penitência preparatória para a Páscoa, com jejum e abstinência de carne e renovação interior para toda a Igreja, o carnaval era comemorado pelos cristãos já no Natal, Ano Novo e Festa de Reis. No ano 590 a Igreja Católica autoriza que se realizem festejos de desfiles e espetáculos de caráter cómico.

Os excessos foram tantos que levaram São Cipriano, São Clemente de Alexandria e o Papa Inocêncio II, a contestar fortemente o Carnaval.

Já no século XV, o Papa Paulo II, II contribuiu para a evolução do carnaval, imprimindo uma mudança ao permitir o baile de máscaras, e que em frente ao seu palácio, se realizasse o carnaval romano, com corridas de cavalos, carros alegóricos, corridas de corcundas, lançamento de ovos, água e farinha e outras manifestações populares.

 

Os bailes de máscaras adquiriram força nos séculos XV e XVI, por influência da Commedia dell'Arte. Eram sucesso na Corte de Carlos VI, de França. Ironicamente, esse rei, já meio demente,  teve, provavelmente, uma tentativa de assassinato em 1393, numa dessas festas fantasiado de urso.

As máscaras também eram confeccionadas para as festas religiosas como a Epifania (Dia de Reis). Em Veneza e Florença, no século XVIII, as damas elegantes da nobreza utilizavam-na como instrumento de sedução.

Na França, o carnaval resistiu até mesmo à Revolução Francesa e voltou a renascer com vigor na época do Romantismo, entre 1830 e 1850. 
Manifestação artística onde prevalecia a ordem e a elegância, com seus bailes e desfiles alegóricos, o carnaval europeu iria desaparecer aos poucos na Europa, em fins do século XIX e começo do século XX.

Em Portugal, antes da importação do Carnaval brasileiro, com a sua nudez do calor que se faz sentir no Brasil nesta época do ano, com as suas danças bamboleando o corpo, as suas cores vibrantes, havia e ainda se conserva em muitos lugares, as comemorações ancestrais, como a “Queima da Comadre”, (Cinfães) e na linda aldeia de Alvarelhos e  a “Dança dos Cús” em Cabanas de Viriato, ambas pertences a Carregal do Sal,   os caretos, facanitos e matrafonas (Trás os Montes), as Máscaras e cantigas de Escárnio (Lazarim-Lamego) e tantas outras associadas a maldades inocentes, porque NO ENTRUDO VALE TUDO. NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL.

Desejo: bons dias de diversão, com alegria, com boa disposição, com saúde e paz. Celeste Cortez

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domingo, 1 de janeiro de 2023

CECILIA MEIRELES - RENOVA-TE (CÃNTICO 13)

 

“CÂNTICO 13 - RENOVA-TE” de Cecilia Meireles (In Cânticos, 1982)

CÂNTICO 13 - RENOVA-TE

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.


Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

NATAL DO MENINO POBRE, soneto do poeta CLEOMENOS CAMPOS

 


       

SONETO DE Cleômenes Campos ,  Estado de Sergipe 1895 – S.Paulo 1968,(Brasil)  fundador da Academia Sergipana de Letras em 1929.

 

NATAL DO MENINO POBRE .

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

CASCAIS - FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DA LUZ

     A Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, de Cascais, um dos mais significantes monumentos históricos de Cascais, a seguir descritos pelo amigo e confrade DR. JOÃO ANIBAL DA VEIGA HENRIQUES, com quem naturais e habitantes de Cascais ouviram e visitaram a Fortaleza, na noite gelada e chuvosa de quarta-feira, 30 de Novembro de 2022, numa alusão velada, mas assumida, como ele diz, à ANTEMANHÃ DO 1º.DE DEZEMBRO DE 1640, que restaurou a INDEPENDÊNCIA NACIONAL DE PORTUGAL.  


          Impagáveis são os momentos, não só das histórias da História que ouvimos, da visita,  também da voz tão especial da fadista DEOLINDA BERNARDO, que já conhecíamos por meu marido ter cantado fado, num dia em que ela também cantou numa sardinhada, em 2011, ao ar livre, no Bairro dos Pescadores, em Cascais. (FOTO ACIMA). Quanta alegria por a rever, e a sua voz se não está na mesma, está ainda mais empolgante, sem deixar de ser espontânea e levando todos - ou quase todos - os presentes a cantar, a libertarem a criança que está dentro de cada um.  

     Seguem-se as palavras do GeÓlogo e Historiador, de quem tenho a honra de ser amiga e confrade João Anibal da Veiga Henriques: 

... "Como se de um segredo se tratasse, Cascais guarda nas velhas arribas sobranceiras ao mar uma inusitada “Matrioska” patrimonial. A torre joanina de Santo António, construída em 1488 e porventura um dos mais significantes monumentos históricos de Cascais, surge envolvida pela Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, edificada em torno da anterior já no final do Século XVI e por sua vez abraçada pelas impactantes muralhas da Cidadela de Cascais, fortificação construída por ordem de Dom João IV depois da restauração da independência nacional em 1640.

   Assumidamente guarda avançada de Lisboa, que zelava estrategicamente pelo controle do acesso à capital através da barra do Tejo, a antiga Torre de Santo António e posteriormente a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, desempenhou um papel de grande relevo em vários momentos importantes da História de Portugal. E o seu uso militar, que se prolongou durante muitos séculos, foi determinante na definição daquilo que haveria de dar corpo à Identidade Municipal.

   Utilizada como estação rádio-naval, quando o avanço técnico da guerra fez diminuir o seu poderio militar, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz passou 500 anos de costas voltadas aos cascalenses que, impedidos de ali entrar e de conhecer o monumento, criaram em seu torno uma aura quase mística de deslumbramento, de curiosidade e de interesse que aumenta paulatinamente.

   Na noite gelada da passada Quarta-feira, 30 de Novembro, numa alusão velada (mas assumida) à antemanhã que devolveu Portugal aos portugueses no dia primeiro de Dezembro de 1640, a Fortaleza da Luz abriu novamente as suas portas às gentes de Cascais. E foi literalmente com “fortaleza cheia”, que os historiadores Drª. Margarida Magalhães Ramalho e Dr. Joaquim Boiça desvendaram, através de uma conversa aberta que eu tive a honra de moderar, os segredos maiores deste importante monumento de Cascais.

   As visitas que ambos os especialistas guiaram através dos segredos imensos deste espaço, concretizaram assim o desiderato de devolver pontualmente a fortaleza às gentes de Cascais. E estas, embaladas pela voz harmoniosa da fadista Deolinda Bernardo, sentidamente calcorrearam os cantos e recantos onde cada pedra esconde uma história que merece ser contada.

    Foi uma noite grande para Cascais, esta que se prolongou madrugada fora enquanto durou a força praticamente inesgotável desta fadista extraordinária. E a porta voltou a fechar-se, sempre na expectativa de que volte a abrir-se definitivamente, ao sabor das palavras que deram forma ao convite inicialmente concretizado…

   Quando Fernando Pessoa escreveu a sua “Mensagem”, o Monstrengo ainda assustava quem dali se aproximava. Mas como a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz se conjuga, rimando, entre a espuma das ondas do mar e o verdejante amplexo da Serra de Sintra, pressentiu—se o Infante que marcou mais uma madrugada fria mas cheia de esperança com a certeza de que o Império efectivamente se vai concretizar: “Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

   Um agradecimento especial a todos os que tornaram possível esta noite de emoção, com especial sublinhado para a Drª. Margarida Magalhães Ramalho, para o Dr. Joaquim Boiça e para a fadista Deolinda Bernardo. As imagens são da autoria da fotógrafa Julia Lombao Pardo. Votos de um excelente final de ano, com a inovação de Nossa Senhora da Luz, em Cascais…João Aníbal Henriques"


A ANTEMANHÃ DE CASCAIS NA FORTALEZA DE NOSSA SENHORA DA LUZ


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