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sexta-feira, 16 de julho de 2010

BEIRA,MOÇAMBIQUE

VILA PERY - mais propriamente na aldeia indígena 
próximo da Cabeça do Velho:  

          ..."Levantei novamente a cortina e olhei lá para fora. Na aldeia sem luz, só quando a noite começa a dar a mão à madrugada, se consegue ver a frondosa ACÁCIA e as mangueiras que, em noites de vento, projetavam  caretas nas paredes da casa de minha mãe, nas palhotas da aldeia  e no chão do terreiro, que assustariam as crianças que espreitassem e, talvez, até os adultos que a essa hora passassem por ali.
Felizmente que a aldeia dormia ainda e, só duas ou três horas mais tarde, os mais madrugadores, os que trabalhavam no turno das seis da manhã nos caminhos-de-ferro, abririam a porta da palhota, devagar, bem devagar, para não acordar as crianças que, àquela hora, ainda sonhavam com os anjos.
Será que os meus meninos pretos sonhariam com anjos brancos? Não teria de me preocupar: eu sabia que também havia santos pretos, então teria de haver anjos pretos também. E haveria de certeza um Deus preto, se Deus era para todos os povos, os pretos tinham direito ao seu. Porquê preocupar-me? De resto, já me chegava a preocupação com a minha querida mãe, que toda a noite ardera em febre e nem o Xicwembo  nem o Deus dos brancos lhe tinham valido até agora. A senhora grande e a senhora pequena, diziam que Deus era só um para toda a gente. Era pouco, era trabalho a mais para uma pessoa só.
          Ouvi mais uma vez uma voz dentro de mim a dizer-me: Lina, tu estás revoltada pela rejeição do teu marido, pela falta de filhos, pela morte do teu pai, pela doença da tua mãe, porque já ouviste dizer muitas vezes que Deus é Um ser Omnipotente. Acredita, tens de acreditar.
          Com lágrimas nos olhos, encostei-me à janela e levantei a cortina para espreitar novamente se a luz já se vislumbrava no horizonte, mas pareceu-me que não tinham sido acesas as velinhas com que os anjos dormiam de noite, para não terem medo do escuro, e a mãe dos anjos também ainda não tinha acendido o petromax. Continuava escuro.
Será que a mãe dos anjos, a quem os brancos chamam Nossa Senhora, se zangaria por eu ter pensado assim? Ela sabia que eu gostava dela, era só por pensar que  lá no céu, também não havia iluminação eléctrica, como na minha aldeia". ....

(O extracto é do romance MÃE PRETA, autora Celeste Cortez, a sair em Setembro 2011). É o 2º. romance da autora a ser publicado, de alguns que tem para publicar. 

O romance tem 448 páginas, 230x180. Com 28 capítulos e glossário línguas autóctones/português.

O livro poderá ser pedido a Celeste Cortez (no facebook). Será enviado à cobrança ou com depósito prévio através do NIB.   


Imagem de http://www.flickr.com/photos/feitoamao/3040793337/

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VILA PERY - terra de jacarandás

2ª.EDIÇÃO do romance O MEU PECADO, em Setembro de 2011

VILA PERY TERRA DE JACARANDÁS
Moçambique Extracto de uma parte da descrição de Vila Pery, no início dos anos sessenta.Do romance "O MEU PECADO" - 2ª. edição a sair brevemente.
Ruas larguíssimas que não ficavam atrás das mais largas avenidas de Portugal, no Continente Europeu.
Nos anos 50, os enormes jacarandás tinham sido importados do Brasil, a pedido de um Beirense, quando em Vila Pery exerceu funções administrativas, o Sr. Oliveira da Silva.
As suas flores quando caíam, iam cobrindo os largos passeios. Às vezes, com o vento, voavam qual bailarinas em pontas de pés num rodopio musical, atapetando também o alcatrão da rua que ficava alcatifado de lilás e, quando as pisávamos, faziam um som estrepitoso como se a vila estivesse sempre em festa.
Parecia um cenário de um belo filme! Mas... os cenários são copiados da natureza mágica.
Recordei-me que em miúdo, ....etc.
VILA PERY, NO MEU TEMPO ERA ASSIM.
HOJE CHAMA-SE CHIMOIO. 
Pag.35 a 38 - Alguns anos passados, não me admirei que as ruas de Vila Pery fossem alcatroadas "com alcatrão preto", mas além das flores de jacarandá, os jardins das vivendazinhas amenizavam a cor do chão.
Ah, que se eu fosse dono do Mundo, as ruas seriam pintadas de cores garridas, às ricas, aos quadrados, às pintarolas! Pelo menos se um dia inventar histórias para os meus filhos e netos, as ruas serão assim .
Disseram-me os colegas do quartel que, em Vila Pery, toda a gente ia ao futebol. Quando o ouvi dizer pensei que me estivessem a gozar. Brincadeiras de tropas, mais uma vez! Convenci-me quando me deram a explicação que era um "ritual" principalmente para quem tinha filhas casadoiras. Uma forma de as mostrarem para que arranjassem casamento! E muitos se tinham feito, porque ali havia empresas grandes, que tinham contratado jovens engenheiros, desenhadores, arquitectos, economistas e pessoal para os quadros superiores das empresas, Sociedade Hidroeléctrica do Revuè, Soalpo - Sociedade Algodoeira de Portugal - onde as noivas iam comprar peças de tecido para o seu enxoval de noivado - as Brigadas de Fomento e Povoamento, que tinham por missão fixar colonos em grandes terrenos, que produziam tabaco. (e chá)
O campo de futebol era distante da sede, que era na vila, por isso, no fim do jogo, os carros dirigiam-se para a sede , tendo que atravessar a estrada nacional (que ia até à fronteira), esperando do lado da vila uns pelos outros em fila, como se fosse um acompanhamento aos noivos depois da saída da Igreja. Levou-me a pensar, se não seria um ensaio prévio, só que aqui não se sabia qual era o carro dos noivos porque não havia enfeites, nem lhes atiravam arroz ou pétalas de flores.
Depois do estacionamento em frente ou próximo da sede do clube, as mãos e filhas casadoiras saíam dos carros pavoneando os seus fatos domingueiros, dirigindo-se para uma sala-biblioteca onde ficavam a cavaquear. As mães dos mais pequenitos, preocupavam-se para que não corressem, podiam tropeçar. E para que tivessem cuidado com os carros:
"dá a mão à mãe Jorginho, chamava o Pedro Bastos e a Ivone Shirley, ao mesmo tempo. "Tochan, tem cuidado, não atravesses à frente dos carros", dizia a Ninete. O Marques ficava muito sério a olhar para o filho, a impôr respeito.
- Ó Géninha, despacha-te filha", dizia a Maria Augusta e o Ricardo, mas vendo que ela estava com a Lito da Ninete, já sabiam que iam ter uma tarde sossegada, porque as miúdas entendiam-se perfeitamente bem.
Havia uma sala enorme, polivalente, tanto servia para sala de cinema, como para os artistas-amadores da terra levarem à cena as suas peças de teatro.
Às vezes havia bailarico, com o conjunto "Oliveira Muge", prata da casa, ou com "Os Rebeldes" da Beira, que estava na berra, ambos de muita categoria.


Direitos reservados. Reproduzir apenas com consentimento escrito da autora. Celeste.Cortez@hotmail.com

NOTA DA AUTORA: Aqui deixo, mais uma vez, a minha homenagem à família da Maria Augusta, viúva do Ricardo, do Grémio, minha conterrânea, que faleceu em 2010, com avançada idade.
Tive em 2009 o prazer de falar telefonicamente com a Ivone Shirley ( irmã do Rui,que era jogador de futebol no Sports Clube de Vila Pery). O Jorginho, filho da Ivone Shirley e do Pedro Bastos, menininho de dois anos na altura, levou as alianças do meu casamento. Hoje, a viver na Africa do Sul e o irmão mais novo em Perth, na Austrália, este já se encontrou com minha filha mais velha, a Sami, que também vive em Perth com o marido e filho, num jantar da comunidade/ou na Academia do Bacalhau. A Sami também, como o Jorginho e o Luis Bastos, nasceram em Vila Pery.

Para todos e para os meus leitores, os meus desejos das maiores felicidades, Celeste Cortez

Autora: Celeste de Almeida Campos Cortez Silvestre - pseudónimo literário: Celeste Cortez








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