segunda-feira, 5 de maio de 2014

Que noite serena - Álvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa

Que Noite Serena!


Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos,(heterónimo de Fernando Pessoa) in "Poemas"

O sujeito poético evoca o passado, que se caracteriza como calmo, suave, sossegado, bom, como vemos nos versos: “Suave todo o passado”, “O sossego de outrora/Sossego de várias espécies” e “E tudo bom e horas/De um bem…”. 
O poeta refere serem bons esses tempos, porque não se preocupava com o futuro: “A infância sem futuro pensado”.


Entretanto a vida mudou por sua culpa e pergunta a si próprio: “O que fiz da vida”? E dói, dói, dói. Esta repetição de “dói” refere o sofrimento do poeta ao recordar a sua infância feliz e a impossibilidade de voltar a vivê-la. A infância (boa ou má)m de nenhum de nós,  não consegue ser repetida. O tempo não volta atrás.
Parem com isso dentro da minha cabeça, diz ainda o poeta: São as recordações que atormentam o sujeito poético. 


E muito mais há a dizer deste poema, na sua análise e interpretação de português, mas o espaço de que dispomos é pequeno. 

Aulas de poesia na Actis – Celeste Cortez 



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