terça-feira, 29 de abril de 2014

O elevador de Santa Justa - de Vasco Graça Moura(feito em 1993)



POEMA DE VASCO GRAÇA MOURA (n. 1942-2014)
Imagem muito fora do normal do elevador de Santa Justa (Foto de Tó Cortez). 
podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.

podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.

no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
com o cesário dorme a última varina, a mais robusta.
não é para desoras o elevador de santa justa,

arrefece-lhe o esqueleto de metal,mas tens o dia todo à luz do dia.  não faz mal.



poema de VASCO GRAÇA MOURA - Para uma canção de embalar

para uma canção de embalar  (in O Concerto Campestre)
de Vasco Graça Moura 

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras, 
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo

e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ao VISITANTE Nº.50.000 deste blogue.


Ao visitante Nº. 50.000 deste blogue, venho dizer-lhe que não passou despercebido. Aqui me tem a felicita-lo, a dar-lhe as boas vindas sempre que queira voltar.
Viva a vida intensamente pensando que este pode ser o seu último dia.

HOMENAGEM A VASCO GRAÇA MOURA (03.01.1942 - 27-04-2014)

VASCO GRAÇA MOURA 
(03-01-1942-27-04-2014) *

  Uma lágrima rebelde caiu num sentimento de tristeza pela partida de Vasco Graça Moura, provavelmente o escritor que mais marcou expressivamente a literatura do nosso tempo, a par de Jorge de Sena, este mal conhecido ou desconhecido mesmo do vulgar cidadão e que ainda hoje, tantos anos após a sua morte, não tem o lugar que merece no mundo cultural português.   

          Conheci Vasco Graça Moura, não como gostaria de o ter conhecido: É pá, tu cá tu lá, como se costuma dizer. Digamos que apenas lhe apertei a mão e conversei uns momentos breves, num Encontro de Escritores, no Instituto Superior em Leiria, a 28 de Janeiro de 2008. Poderiam ter sido uns momentos mais longos, pareceu-me mesmo que ele teria ficado sem lanche para me ouvir, mas preferi não o fazer. Afinal quem era eu, apenas tinha dado à luz um romance e ele, o grande homem da literatura teria muito mais para fazer. A sua simpatia e educação cativaram-me, não esquecendo que tinha adorado ouvi-lo na poesia dedicada à sua filha Joana, a quem daqui endereço o meu sentir, assim como a todos os seus familiares. E foi esse o objecto da nossa conversa, a referida poesia e a maneira tão natural e tão expressiva como a disse.
QUE DESCANSE EM PAZ.

POESIA DE VASCO GRAÇA MOURA - EM OUTRAS PÁGINAS. 

* Aos menos atentos: A data do nascimento e a data do falecimento. 


quinta-feira, 24 de abril de 2014

POETA EUGÉNIO DE ANDRADE (de seu nome: José Fontinhas)

Analisado por Celeste Cortez (aulas de Poesia na Actis-Universidade Sénior de Sintra e na Academia da C.V.P. - Cascais

É URGENTE O AMOR

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.                     
É urgente destruir certas palavras
Ódio, solidão, crueldade,            
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente permanecer.

Este poema demonstra um sentimento profundo. O poeta fala como se fosse um narrador.
O que quer o poeta dizer com estas palavras? -   
É urgente o amor; 
É urgente um barco no mar;liberdade, salvação?
Destruir certas palavras.
Quais as palavras que o poeta nos sugere que devem ser destruidas? 
Destruir muitas espadas?
Em que verso é que ele diz ser urgente inventar alegria?
Multiplicar (quantas vezes, não diz, mas…,
Multiplicar o quê?
Beijos significa felicidade? Amor?

POETA – EUGÉNIO DE ANDRADE - Cont Poema URGENTEMENTE -

Multiplicar as searas ? (uma palavra para searas ? abundância;

Descobrir rosas, rios, manhãs claras – será que se refere à natureza no seu esplendor? Ou poderá ser: amizade, beleza?

O poeta sugere-nos, faz-nos ver o caminho para um mundo de felicidade e amor, eliminando o negativismo, os lamentos desnecessários; (em que verso?)

Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer… por isso é URGENTE O AMOR, o amor dentro de nós. Construí-lo todos os dias.

E… PERMANECER no amor. 

É urgente cumprirem-se estas palavras do autor. Sem isso está comprometido o nosso futuro, não haverá harmonia nem paz.
Importa redescobrir o nosso lugar no mundo, na parte que nos rodeia, à nossa volta, melhorando a nossa vida (interior);

- O que faremos para encontrar a felicidade e o amor, na família, na vivência com os amigos? Vamos deixar esta resposta para cada um de nós, para analisar o seu interior. Para viver uma vida mais feliz-  

terça-feira, 22 de abril de 2014

A VIAGEM A SINTRA dos Lisboetas que queriam espairecer - 1900

Naquele tempo…

A VIAGEM A SINTRA

No início do já distante ano de 1900, o fim de semana (só o domingo, porque ao sábado ainda se trabalhava) dos lisboetas que pretendiam espairecer fora de portas, tinha como destino as quintas dos arredores ( Benfica, Caneças, Loures, etc.), as praias de Algés, Dafundo e Cruz Quebrada ou um passeio a Sintra, a idílica vila romântica.
A digressão era preparada nas vésperas com todo o cuidado e muito entusiasmo. No sábado, a “dona da casa” tratava de confecionar a petisqueira para o ansiado “pic-nic” pois as refeições em restaurantes eram inacessíveis à maioria e tal só acontecia quando o rei fazia anos!...




No domingo de manhã os membros da família esmeravam-se nas suas vestimentas domingueiras, reuniam os cestos dos comes, o garrafão de vinho e ala que se faz tarde!
Dirigiam-se os “turistas” à Estação Central do Rossio, compravam o bilhete e postavam-se nos duros bancos de madeira. A máquina a vapor resfolgava e bufava por tudo o que era buraco! Com uns tantos solavancos, lá partia o engenho rumo ao apetecido Éden de Lord Byron.

Nos antigos comboios as carruagens tinham várias portas e, a justificar a “luta de classes”, haviam três categorias de lugares: a 1ª classe para os abastados; a 2ª. para os remediados e a 3ª. para os restantes.
Na primeira classe o preço do bilhete era de 530 réis. Em segunda, custava 360 réis e em terceira ficava por 230 réis.
Também existiam duas espécies de comboios: os rápidos e os regulares. O percurso no “rápido” era feito (pasme-se!) em pouco mais de meia hora. Os “regulares”, que paravam em todas as estações, demoravam o dobro do tempo.
A viagem, porém, não tinha nada de fastidioso pois a paisagem era encantadora. Os olhos dos passageiros deslumbravam-se com as verdejantes vistas das quintas, das matas, das hortas e das aldeias que salpicavam o panorama.
Logo que o trem galgava o túnel, a fumarada lambia os rostos dos passageiros e tornava as faces e as camisas dos passageiros de plúmbea cor.
Apesar de tudo, era uma festa naquelas carruagens, animadas por pessoas alegres. Tudo servia para propiciar boa disposição, desde a brejeira anedota ao chiste mais apimentado. Era o escape duma semana dura de trabalho, com excessivas horas de esforço e de entrega.
E o comboio prosseguia, “pouca terra, pouca terra”, a sua marcha, abrindo-se à nossa vista extensos campos, desde os terrenos por cultivar, até ao campo mais viçoso; desde o pomar bem cuidado até ao jardim mais florido.
Do Cacém para diante já se avistava o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, monumentos maravilhosos.
E, daí a pouco, se chegava à bela estação de Sintra, revestida com preciosa azulejaria de inspiração mourisca. Saíam então os veraneantes no meio de uma algazarra feliz. Esperava-os uma bem puxada caminhada rumo ao local da merenda, caso esta se desenrolasse para além das faldas da serra.
A cada um cabia depois uma missão: estender as mantas, as toalhas, os pratos, talheres, tachos, copos etc.
Que grande festa era aquela para os alegres excursionistas. Os comentários jocosos prosseguiam, entremeando o pastel de bacalhau com o copázio de tinto.
Uff! Comi que nem um abade, confessa aquele que se lança sobre o cobertor para curtir uma repousante sesta ou se preparar para uma disputada suecada. Mais tarde, ainda se lancham os excedentes do almoço.
O regresso custa mais, “ Vêem da festa!”. E, de novo, sobem para o comboio que os vai repor na capital O ambiente é agora mais calmo. O cansaço fez alguma mossa naquela gente.
Mas a satisfação era geral e já se combinava nova festarola lá mais para diante Que lindo dia lhes tinha sido proporcionado em Sintra. A bela e sempre misteriosa Sintra.
Há um provérbio espanhol que diz: “Chegar a Sintra é ver o Mundo inteiro”.

                                                                                  Carlos Brandão de Almeida

2011-08-0

segunda-feira, 21 de abril de 2014

MÃE PRETA (poema de Celeste Cortez,premiado no Brasil)


                                   MÃE PRETA 
Moçambique: mulher trajando capulana
foto da net 
       Mãe Preta traz no ventre seu mundo que vai nascer
Sorri feliz esquecendo o amendoim que a seca queimou,
O milho que a água alagou, a semente que o sol secou
Mas não esquece a fome que faz doer e ficou.

Hoje não vai buscar água porque seu filho tirou  
Seu pequenino mundo nasceu, gemeu e com fome berrou
Pediu comida que ela não tinha pr’a dar
Mãe Preta aconchegou seu menino e ficou a chorar 

No fundo da panela  um resto de quase nada
Mãe Preta amassou em sua boca a farinha empapada,
Mastigou, mastigou, mastigou, em sua boca não ficou nada
Como mãe-ave a papa depositara na boquinha rosada

Madrugada  no lamacento caminho com lata d’água à  cabeça já vem
Filho com amor aperta,   sonhando “sonhos de mãe”
Fogueira acende. Panela ao lume dos restos que no pilão havia
      A teta acaricia: Sorri com esperança para o filho que no colo tem

Do coração de Mãe Preta canção alegre começa a brotar
Seus lábios entoam bela melodia que o vento irá pr’a longe levar.
Anca bamboleia, marrabenta dançando, sorri enlevada

Puxando seu seio o passarinho do seu mundo vai alimentar
Lágrimas amargas de Mãe Preta  irão por fim secar
Porque hoje não lhe irá dar farinha empapada

Celeste Cortez - 2º.Prémio de poesia -  ALACIB – BRASIL.



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