segunda-feira, 21 de abril de 2014

MÃE PRETA (poema de Celeste Cortez,premiado no Brasil)


                                   MÃE PRETA 
Moçambique: mulher trajando capulana
foto da net 
       Mãe Preta traz no ventre seu mundo que vai nascer
Sorri feliz esquecendo o amendoim que a seca queimou,
O milho que a água alagou, a semente que o sol secou
Mas não esquece a fome que faz doer e ficou.

Hoje não vai buscar água porque seu filho tirou  
Seu pequenino mundo nasceu, gemeu e com fome berrou
Pediu comida que ela não tinha pr’a dar
Mãe Preta aconchegou seu menino e ficou a chorar 

No fundo da panela  um resto de quase nada
Mãe Preta amassou em sua boca a farinha empapada,
Mastigou, mastigou, mastigou, em sua boca não ficou nada
Como mãe-ave a papa depositara na boquinha rosada

Madrugada  no lamacento caminho com lata d’água à  cabeça já vem
Filho com amor aperta,   sonhando “sonhos de mãe”
Fogueira acende. Panela ao lume dos restos que no pilão havia
      A teta acaricia: Sorri com esperança para o filho que no colo tem

Do coração de Mãe Preta canção alegre começa a brotar
Seus lábios entoam bela melodia que o vento irá pr’a longe levar.
Anca bamboleia, marrabenta dançando, sorri enlevada

Puxando seu seio o passarinho do seu mundo vai alimentar
Lágrimas amargas de Mãe Preta  irão por fim secar
Porque hoje não lhe irá dar farinha empapada

Celeste Cortez - 2º.Prémio de poesia -  ALACIB – BRASIL.



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