terça-feira, 22 de abril de 2014

A VIAGEM A SINTRA dos Lisboetas que queriam espairecer - 1900

Naquele tempo…

A VIAGEM A SINTRA

No início do já distante ano de 1900, o fim de semana (só o domingo, porque ao sábado ainda se trabalhava) dos lisboetas que pretendiam espairecer fora de portas, tinha como destino as quintas dos arredores ( Benfica, Caneças, Loures, etc.), as praias de Algés, Dafundo e Cruz Quebrada ou um passeio a Sintra, a idílica vila romântica.
A digressão era preparada nas vésperas com todo o cuidado e muito entusiasmo. No sábado, a “dona da casa” tratava de confecionar a petisqueira para o ansiado “pic-nic” pois as refeições em restaurantes eram inacessíveis à maioria e tal só acontecia quando o rei fazia anos!...




No domingo de manhã os membros da família esmeravam-se nas suas vestimentas domingueiras, reuniam os cestos dos comes, o garrafão de vinho e ala que se faz tarde!
Dirigiam-se os “turistas” à Estação Central do Rossio, compravam o bilhete e postavam-se nos duros bancos de madeira. A máquina a vapor resfolgava e bufava por tudo o que era buraco! Com uns tantos solavancos, lá partia o engenho rumo ao apetecido Éden de Lord Byron.

Nos antigos comboios as carruagens tinham várias portas e, a justificar a “luta de classes”, haviam três categorias de lugares: a 1ª classe para os abastados; a 2ª. para os remediados e a 3ª. para os restantes.
Na primeira classe o preço do bilhete era de 530 réis. Em segunda, custava 360 réis e em terceira ficava por 230 réis.
Também existiam duas espécies de comboios: os rápidos e os regulares. O percurso no “rápido” era feito (pasme-se!) em pouco mais de meia hora. Os “regulares”, que paravam em todas as estações, demoravam o dobro do tempo.
A viagem, porém, não tinha nada de fastidioso pois a paisagem era encantadora. Os olhos dos passageiros deslumbravam-se com as verdejantes vistas das quintas, das matas, das hortas e das aldeias que salpicavam o panorama.
Logo que o trem galgava o túnel, a fumarada lambia os rostos dos passageiros e tornava as faces e as camisas dos passageiros de plúmbea cor.
Apesar de tudo, era uma festa naquelas carruagens, animadas por pessoas alegres. Tudo servia para propiciar boa disposição, desde a brejeira anedota ao chiste mais apimentado. Era o escape duma semana dura de trabalho, com excessivas horas de esforço e de entrega.
E o comboio prosseguia, “pouca terra, pouca terra”, a sua marcha, abrindo-se à nossa vista extensos campos, desde os terrenos por cultivar, até ao campo mais viçoso; desde o pomar bem cuidado até ao jardim mais florido.
Do Cacém para diante já se avistava o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena, monumentos maravilhosos.
E, daí a pouco, se chegava à bela estação de Sintra, revestida com preciosa azulejaria de inspiração mourisca. Saíam então os veraneantes no meio de uma algazarra feliz. Esperava-os uma bem puxada caminhada rumo ao local da merenda, caso esta se desenrolasse para além das faldas da serra.
A cada um cabia depois uma missão: estender as mantas, as toalhas, os pratos, talheres, tachos, copos etc.
Que grande festa era aquela para os alegres excursionistas. Os comentários jocosos prosseguiam, entremeando o pastel de bacalhau com o copázio de tinto.
Uff! Comi que nem um abade, confessa aquele que se lança sobre o cobertor para curtir uma repousante sesta ou se preparar para uma disputada suecada. Mais tarde, ainda se lancham os excedentes do almoço.
O regresso custa mais, “ Vêem da festa!”. E, de novo, sobem para o comboio que os vai repor na capital O ambiente é agora mais calmo. O cansaço fez alguma mossa naquela gente.
Mas a satisfação era geral e já se combinava nova festarola lá mais para diante Que lindo dia lhes tinha sido proporcionado em Sintra. A bela e sempre misteriosa Sintra.
Há um provérbio espanhol que diz: “Chegar a Sintra é ver o Mundo inteiro”.

                                                                                  Carlos Brandão de Almeida

2011-08-0

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