terça-feira, 18 de abril de 2023

DIA 17 DE ABRIL DE 2023 - O DIA EM QUE FALECEU UM GRANDE POETA - JOAQUIM PESSOA

 UM POEMA DE JOAQUIM PESSOA, publicado no dia seguinte à sua morte


JOAQUIM ANTÓNIO PESSOA, Barreiro 22-2-1948 - 17-4-2023. 

DIA 61(in’Ano Comum) – DE JOAQUIM PESSOA .


Atravessei o buraco da agulha. Do outro lado, um mundo surpreendente. Nem freguesias, nem distritos, nem países, sequer. Quero dizer, não há nações. E não há discursos, nem propaganda. Os pobres não são pobres, porque não há ricos. Há coragem. E conta muito a opinião dos outros. Ninguém conhece o roubo. Não há polícias, existem apenas pessoas que se respeitam e acreditam. E confiam. E há sempre respostas para as perguntas. Não há necessidade de provedores nem reguladores nem promotores públicos. As fechaduras têm como função evitar que as portas batam e os Bancos têm como função evitar que, pontualmente, as pessoas tenham dificuldades. O trabalho é organizado conforme as aptidões de cada um e o ensino regulado pelos que sabem ensinar. Os salários são justos e suficientes. Assim como os impostos. Os museus estão cheios de visitantes. Ninguém deixa de pagar o que pede emprestado e o governo democraticamente eleito é constituído pelos cidadãos mais competentes em cada área. A sua primeira preocupação é a qualidade de vida dos cidadãos. Há um Ministério do Amor. E um coeso Sindicato de escritores, artistas e músicos. Não se utilizam recibos verdes, nem azuis, nem de qualquer outra cor. Foram extintas as armas, banidas as guerras. Desconhece-se a corrupção e ninguém parece saber o que são as drogas. O mercado é transparente, as acções são de valor firme porque são as imputadas ao valor moral de cada cidadão. A única violência conhecida é a da natureza. E Deus já não é preciso. Fez, bem feito, o que pôde e o que soube, e deixou o restante entregue à capacidade dos homens. Se quiserem atravessar também o buraco da agulha, inscrevam-se. Quem ainda não souber assinar, faça uma cruz. (
Joaquim Pessoa, in "Ano Comum", pág.76, Litexa editora.

          

segunda-feira, 13 de março de 2023

UM POR TODOS, TODOS POR UM - autor: Carlos Brandão de Almeida

 UM POR TODOS, TODOS POR UM 

Saúl, o velho Saúl, era o proprietário duma oficina de automóveis. Os seus amigos alcunharam-no, carinhosamente, de O Filósofo pois o mecânico destacava-se, na conversa com os companheiros, com sentenças assertivas, expondo os seus conhecimentos da vida e dos livros de maneira convincente. 

Saúl tinha um neto de onze anos – o João – que era, como vulgarmente se diz, a luz dos seus olhos. 

Um dia, o João visitou o avô na oficina e, contrariamente à sua proverbial alegria e jovialidade, vinha sorumbático  

O avô, estranhando aquele aspecto do rapaz, perguntou-lhe o que se passava com ele. 

O João, inseguro, fugiu à resposta para não intranquilizar o avô. Este, todavia, insistiu em saber o que é que apoquentava o seu neto. 

Imagens Uniao | Vetores, fotos de arquivo e PSD grátisAté que, dada a persistência do avô, o João acabou por esclarecer: 

- Ó avô, na verdade, eu estou muito revoltado com o treinador do clube por não me ter escolhido para jogar contra os matulões das Águias de Bernes. O avô sabe que eu sou bom jogador por isso não me conformo por ele me ter posto em “apanha bolas”. Acho injusto. Estou mesmo magoado. 

- Sem dúvida que és um bom praticante de futebol. Mas o teu treinador também é um técnico competente e tenho-o na conta de ser um homem justo. Provavelmente, ele considera que para jogar contra os “matulões” há outros jogadores mais adequados. Ele gosta muito de ti, eu sei. Vais ver que para o próximo jogo ele vai-te seleccionar. Também é correcto que sejam dadas oportunidades aos demais, não achas? 

Sabes uma coisa João: todas as tarefas são importantes dentro duma equipa. Se não houver rapazes a apanhar as bolas saídas do campo o jogo demora mais tempo, torna-se enfadonho e os jogadores cansam-se mais. 

E é também assim na vida: todo o trabalho - mais ou menos elaborado é meritório e todo o trabalhador deve ser respeitado. 

Vou-te dar um exemplo, se tiveres paciência para me ouvir. 

- Não estou aqui para outra coisa, avô. E fico muito agradecido por me ensinares. 

- Então, olha para o motor deste carro. Se alguma das peças que o compõem falhar, por mais simples que seja, o motor para e o carro deixa de andar. Entendes João? Lembra-te que se um órgão do corpo humano fracassar a pessoa fica doente. Todos as parcelas do corpo são vitais. 

O jovem fitou demoradamente para o olhar calmo e amoroso do avô, sorriu e agarrou-se à sua cintura. 

 

Esta trivial historieta vem-nos lembrar que, bastas vezes, desvalorizamos o trabalho indiferenciado, tão útil e necessário à comunidade. Preferimos eleger, para o palco da notoriedade, o labor especializado. 

A realidade tem-nos demonstrado, porém que, para que a obra se realize, é fundamental a participação de todos os obreiros, sejam mais, ou menos qualificados. 

Alguém sentenciou lucidamente que não nos devemos preocupar com o que está em cima da mesa, mas sim com o que está à volta dela. Tampouco avaliar uma prenda pelo que ela vale, mas antes pelo que ela representa. 

Não esqueçamos o esforço que alguém despendeu para termos uns sapatos ou um boné, provavelmente poderá ser equivalente ao que outra pessoa fez para possuirmos um telemóvel ou um computador. 

Uma vez recebi uma lição que nunca mais esqueci: dentro de um supermercado dirigi-me a um empregado que arrumava uma prateleira e perguntei-lhe onde é que poderia encontrar o artigo que procurava. A resposta foi respeitosa e exemplar: “Boa tarde, senhor!”. Ali estava uma pessoa e não um “robot”. 

 

              Carlos Brandão de Almeida  

22.01.2022 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

NO ENTRUDO VALE TUDO - NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL...

 

NO ENTRUDO VALE TUDO. NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL. (mas respeitinho é muito lindo, diziam na minha terra).

                                                                    por: Celeste Cortez 2023)




C
omo pré-penitência preparatória para a Páscoa, com jejum e abstinência de carne e renovação interior para toda a Igreja, o carnaval era comemorado pelos cristãos já no Natal, Ano Novo e Festa de Reis. No ano 590 a Igreja Católica autoriza que se realizem festejos de desfiles e espetáculos de caráter cómico.

Os excessos foram tantos que levaram São Cipriano, São Clemente de Alexandria e o Papa Inocêncio II, a contestar fortemente o Carnaval.

Já no século XV, o Papa Paulo II, II contribuiu para a evolução do carnaval, imprimindo uma mudança ao permitir o baile de máscaras, e que em frente ao seu palácio, se realizasse o carnaval romano, com corridas de cavalos, carros alegóricos, corridas de corcundas, lançamento de ovos, água e farinha e outras manifestações populares.

 

Os bailes de máscaras adquiriram força nos séculos XV e XVI, por influência da Commedia dell'Arte. Eram sucesso na Corte de Carlos VI, de França. Ironicamente, esse rei, já meio demente,  teve, provavelmente, uma tentativa de assassinato em 1393, numa dessas festas fantasiado de urso.

As máscaras também eram confeccionadas para as festas religiosas como a Epifania (Dia de Reis). Em Veneza e Florença, no século XVIII, as damas elegantes da nobreza utilizavam-na como instrumento de sedução.

Na França, o carnaval resistiu até mesmo à Revolução Francesa e voltou a renascer com vigor na época do Romantismo, entre 1830 e 1850. 
Manifestação artística onde prevalecia a ordem e a elegância, com seus bailes e desfiles alegóricos, o carnaval europeu iria desaparecer aos poucos na Europa, em fins do século XIX e começo do século XX.

Em Portugal, antes da importação do Carnaval brasileiro, com a sua nudez do calor que se faz sentir no Brasil nesta época do ano, com as suas danças bamboleando o corpo, as suas cores vibrantes, havia e ainda se conserva em muitos lugares, as comemorações ancestrais, como a “Queima da Comadre”, (Cinfães) e na linda aldeia de Alvarelhos e  a “Dança dos Cús” em Cabanas de Viriato, ambas pertences a Carregal do Sal,   os caretos, facanitos e matrafonas (Trás os Montes), as Máscaras e cantigas de Escárnio (Lazarim-Lamego) e tantas outras associadas a maldades inocentes, porque NO ENTRUDO VALE TUDO. NO CARNAVAL NÃO SE LEVA A MAL.

Desejo: bons dias de diversão, com alegria, com boa disposição, com saúde e paz. Celeste Cortez

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domingo, 1 de janeiro de 2023

CECILIA MEIRELES - RENOVA-TE (CÃNTICO 13)

 

“CÂNTICO 13 - RENOVA-TE” de Cecilia Meireles (In Cânticos, 1982)

CÂNTICO 13 - RENOVA-TE

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.


Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


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