terça-feira, 28 de setembro de 2010

D. CARLOS I - REI DE PORTUGAL E A BAÍA DE CASCAIS

D. CARLOS I - REI DE PORTUGAL
E A BAÍA DE CASCAIS, DE ONDE
SAIU O SEU 1º. CRUZEIRO.

Faz hoje, dia 28 de Setembro de 2010, 147 anos que nasceu o nosso Rei D. Carlos I.
O facto de ter estado bastante ocupada ultimamente, com o III ENCONTRO DE ESCRITORES e ontem com a sessão solene da ACADEMIA DE LETRAS, não me permitiu escrever atempadamente sobre o assunto.
Não notei que no noticiário de hoje, este facto tenha sido referido. Mas porque moro nesta terra maravilhosa, que tem uma belíssima Baía de onde saiu o seu 1º. cruzeiro, no verão de 1896, não quero deixar passar esta efeméride sem a ela me referir. E porque gosto de Reis, de Principes, de Rainhas, Princesas, Marqueses, Duques, Condes, etc. (e talvez não só), e, porque gosto de elogiar quem o merece, aqui deixo estas linhas escritas à pressa, em preito de homenagem simples, mas sincera, ao Monarca sábio, como lhe chamou o Principe de Mónaco.

Reinou D. Carlos entre 1889 e 1908, e mais poderia ter reinado, se um tiro traiçoeiro lhe não tivesse tirado a vida, a 01-02-1908, com apenas 45 anos de idade.

Segundo os historiadores, era um homem inteligente, sensível, pintor talentoso, com uma paixão pelo mar.
Esta paixão pelo mar, levou-o a investigações científicas feitas a bordo do iate AMÉLIA, nome de sua esposa D. Amélia de Orleães e Bragança. Teve mais três iates com o mesmo nome.
D. Carlos I, é, sem sombra de dúvida, o pai da oceanografia portuguesa.
Como disse atrás, aqui fica uma homenagem pequena, a um Rei de GRANDES TALENTOS.
CELESTE CORTEZ

sábado, 4 de setembro de 2010

O MEU PERFIL

O MEU PERFIL  - artigo I

Dizem-me que no meu blogue falta o meu perfil.
Aqui vai o perfil de uma brincalhona. Terá a ver comigo? Digam, sim?
Perfil, que nome estranho, se atentarmos no facto de que perfil, à primeira vista, é o "delineamento do rosto de uma pessoa vista de lado", ou a representação de uma figura ou de um objeto visto de um dos seus lados. Deveria pois ser rosto ou figura vistos de lado.
Poderá ser também um pequeno escrito em que se faz, a traços largos, o retrato, físico ou mental (?) de um indivíduo. Acresce aqui perguntar: E eu, sou "uma" indivíduo? Porquê "uma"? Porque... porque me lembrei que a Karina, uma netinha minha quando era pequenita, dizia: um mesa, um cadeira. Não sabendo como lhe explicar o género feminino e masculino, tentei: Olha minha querida, uma cadeira, uma mesa, porque...porque é...menina. A Karina entendeu. Entendeu e passou a dizer: uma mesa, uma cadeira. 
Um ou dois dias depois fomos a uma sapataria, calçaram-lhe "um sapato branco". Eu elogiei-a para a entusiasmar a calçar sapatos, já que ela "adorava" andar descalça: Karina, que lindo sapato. A minha fofinha respondeu-me prontamente: "sapato" não vóvó "sapata" porque Karina "é menina".
Mas, minha querida:  diz-se "sapato" e  como é "branco", a Karina dirá: "que lindo sapato branco".
Não vóvó, a Karina é menina diz: "que linda sapata branca".
Não desisti. Não desisto facilmente, é uma característica do meu feitio.
Assim que a moça da sapataria calçou os sapatos nos dois pés da minha netinha (hoje engenheira química) quis ir mais além, explicar bem à minha netinha. Disse-lhe: Karina, que lindos sapatos brancos!... ao que ela no mesmo instante retrucou: Que "lindas sapatas brancas porque Karina é menina

Vou pegar nos cordelinhos soltos do artigo e vou desenvolver o assunto sobre o meu perfil. Eu, a Celeste Cortez, que sou "um indivíduo", apesar de ter sido menina e ser senhora. O que é um indivíduo?
Um "indivíduo" é qualquer ser em relação à sua espécie. Mas indivíduo pode ser alguém que não se quer nomear. E eu quero.
Pode ser um sujeito. E esta, pode ser um sujeito!  Que mania, todos os substantivos que me poderiam identificar, são s.m., quer dizer: substantivos masculinos. Mas eu sou bem feminina. Visto-me com roupas vistosas, adoro saltos altos, cabelos fartos, baton nos lábios, brincos nas orelhas. Orelhas não furadas... não descendo de escravas. Desculpem, é a origem do furo nas orelhas, não é? Será que estou a fazer confusão?
Mas actualmente quase todas as meninas e senhoras têm orelhas furadas. E... pára Celeste, estavas a falar sobre o teu perfil!

Claro, lembro-me perfeitamente. A falar no "indivíduo". O indivíduo  pode ser "pessoa". Ah! até que enfim, eureka! Encontrei! Agora sim, acertei. Um indivíduo... e eu sou um individuo, e um indivíduo é uma "pessoa". Uma pessoa. Sabe tão bem repetir esta palavra "pessoa", porque, esta sim, é bem feminina. E essa "pessoa" sou eu. A que queria escrever o seu perfil. E ainda quer. Vamos lá... 
Então... então... vistas as coisas por este prisma (não desenvolvas o tema do prisma!!!), um homem não pode ser uma "pessoa". Porque "pessoa" é feminino! Ou então,  eu já não sei distinguir o feminino e o masculino.
Terei de chamar a Karina? Ela aprendeu. Aprendeu depressa e bem. Mas está longe, em França.
          Vou repetir : por este dissecar (mas que seca!!!), o homem não pode ser "pessoa". Ou não poderia se "pessoa" não se aplicasse ao ser feminino e masculino. Têm a certeza que o homem pode ser pessoa? Estranho, a palavra acaba em "a" deveria ser apenas para o sexo feminino. Mas sexo masculino? ????? 

POR QUALQUER MOTIVO FALTOU AQUI CONVERSA. ONDE ESTÁ???

Os anjos também não, mas estes, mesmo masculinos, não são pessoas. São anjos.
E os homens? São homens ou demónios, conforme calha.
"Meninas" e "senhoras", isso sim, são "pessoas".
A continuar a falar no perfil, um destes dias. Em 3 artigos.
Por hoje, adeus amigos. Voltem sempre ao meu blogue para conversarmos. Eu sou uma tagarela (outro  atributo do meu perfil, da minha "pessoa".

Celeste Cortez
























































sexta-feira, 3 de setembro de 2010

ADEUS MENINO, ADEUS










A despedida é sempre triste. Mas a tristeza parece regulável, consoante a quem dizemos adeus.






Fui hoje, pela ultima vez, dizer adeus a alguém que marcou a minha vida positivamente. Nascemos primas, mas com muitos anos de diferença. Quando eu nasci, ela poderia ter sido minha mãe. Era prima direita de meu querido pai. Pela amizade, meus pais convidaram-na e ao seu irmão mais velho (José Silvestre Cortez,que se despediu de nós a 17-04-2000), para meus padrinhos de batismo. Mais tarde, vim a casar com o irmão mais novo.
A Celeste Augusta Cortez Silvestre Portela, passou a ser prima-madrinha de batismo-cunhada. E amiga.
Celeste Portela viveu uma longa vida - 87 anos - É certo que poderia ter vivido mais. E poderia ter vivido os últimos tempos, sem alzheimer. Mas não sucedeu. Dizer adeus é triste. Deixa sempre saudades. Mas é compreensível esta dor, perante alguém que viveu 87 anos.

MAS TU HÉLIO ?
Mas tu Hélio? Menino de 11 anos, que levaste uma bala que não te era destinada, não tinhas o direito de desaparecer tão novo. Teus pais tinham traçado esperanças para o teu futuro. O que querias ser Hélio? Médico, enfermeiro, futebolista, polícia... não, eu sei que não, Hélio.
Regressavas da escola. Teu corpo jaz, inerte, na rua, coberto por uma capulana, que mão anónima te ofereceu - provavelmente Mãe desconhecida, já que a tua mãe não estava ali para te tapar.
Teus olhos fecharam-se para sempre. Não poderás ver os livros que jazem do lado esquerdo do teu cadaver. Nem te queixarás da enorme ferida na cabeça que fez empoçamento de sangue no chão, no lado direito do teu corpo. Não mais jogarás futebol com os teus amigos do bairro. Não subirás às mangueiras, aos cajueiros. Xi, Hélio, parecias um gatinho a trepar. E punhas algumas mangas amarelinhas no bolso das calças. E a tua mãe zangava-se, Hélio, porque muitas vezes rebentavas os bolsos. Isso não se faz, Hélio, dizia-te ela. Mas eram brincadeiras próprias da tua idade. Agora, a mãe vai sentir saudades de dizer: Hélio, não subas às árvores, olha se rebentas os bolsos, as calças ficam velhas. E não tenho dinheiro para outras. Hélio.
Não mais verás o por do sol tão belo.
Não verás o amanhecer com aquele sol que se abraçava a ti e te acompanhava até à escola e esperava por ti para te acompanhar no regresso.
Não sentirás o cheiro da terra molhada, quando a chuva caia e tinhas de correr.
Hélio, não verás o dia de amanhã, com a paz que voltará para todos. Porque todos são irmãos. Tem de haver paz, em teu nome, em nome de todos.
Amanhã virá a paz. E não estarás cá para a viver.

Custa muito dizer adeus a um menino da tua idade. E custa mais quando partiste inglóriamente. Adeus Hélio.
3-09-2010 Celeste Cortez
7-09-2010 - EU NÃO DISSE, HÉLIO? Em Moçambique tudo vai voltar à normalidade, e tu não estás para saboreares o pão que te faria crescer! Beijito Hélio.

domingo, 22 de agosto de 2010

DESPEDIDA DE MOÇAMBIQUE - I -



ESTA VIAGEM ERA A DESPEDIDA DE MOÇAMBIQUE!


Cada passageiro teve direito a despachar apenas os vinte quilos que a lei permitia. Assim, sem contemplações por uma vida desfeita, onde tantos anos de poupanças e sacrifícios monetários teriam de ficar para trás.

Sem poderem sequer levar as melhores recordações: quadros pintados ao longo dos anos, mantas de retalhos que teriam sido feitas com tanto amor nos longos dias de verão, livros que lhes teriam sido oferecidos por pessoas que, nunca mais veriam, mas que iriam recordar para sempre!


Esta viagem era a despedida de Moçambique!


Não podendo despachar mais dos que o permitido por lei, por isso, na mão de cada um deles, tantos embrulhos, caixas de cartão, malinhas, sacos!

Logo à entrada da sala de espera do aeroporto de Lourenço Marques, fomos avisados pelos altifalantes que o máximo permitido em mão, era um volume que coubesse no compartimento que se situava por cima da cabeça dos passageiros.

Recordo-me que me agarrei com força ao saco de tecido, que servira para a fábrica de moagem transportar farinha pra os panificadores e para os lojistas do mato, e eu enfeitara com uns retalhos de tecido e uns bordados com linhas grossas.

Como poderia embarcar sem levar as nossas duas almofadas e os dois cobertores? Quando chegassemos a Portugal, sem família, sem amigos, sem emprego, como poderia comprá-los?

Olhei à minha volta e reparei que, como eu, todas as pessoas tinham a seu lado alguns volumes que seguravam como se ali estivessem depositadas as mais preciosas jóias do Mundo.

Nessa altura, chamaram para embarque e em fila seguimos para o avião, num silêncio que poderia ser cortado com uma faca. Sem querer, pensei num enterro. Pelo meu corpo perpassou um arrepio que me fez gelar. No Búzi, tinha deixado o corpo de minha mãe. Em Vila Pery, o de meu pai. Porque é que as pessoas de quem gostamos não nos acompanham toda a vida? Ou pelo menos enquanto precisamos delas?


Parte do capítulo XXIII - extraído do romance O MEU PECADO, registado na SPA sob o nº. 24698 em 25-09-2006. Todos os direitos reservados.


Não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado pra uso público ou privado - além do uso legal como breve citação em artigos e críticas - sem prévia autorização escrita da autora.


Autora: Celeste Cortez - endereço electronico: celeste.cortez@hotmail.com

domingo, 15 de agosto de 2010

BATALHA DE ALJUBARROTA - 14 DE AGOSTO

BATALHA DE ALJUBARROTA - 14 DE AGOSTO

Lembrei-me da Branquinha que hoje faz anos. Telefonei mas tinha saído para compras. É hospedeira da Tap . Conversei com uma amiga que estava lá em casa a tomar conta da mãe D. Maria Jorge Serra. Como o tempo passa, a senhora lembrou-me que a minha boa e querida amiga D. Maria Jorge, de quem, desde pequenina me lembro, já tem 92 anos. Hoje vejo que é bem parecida com a prima, embora esta com outro tom de pele e cabelo Drª. Maria de Jesus Barroso.
Pequenina a D.Maria Jorge, cabelo muito preto, muito encaracolado, de bata branca, sempre de bata branca. Viviamos paredes meias com ela. Na mesma casa que tinha sido uma vivenda onde murou seu cunhado Armando Nunes, dono da Sociedade de Agências, empresa grande que vendia automóveis, noMaquinino, onde meu pai era guarda-livros. O Sr. Serra trabalhava no escritório, era meio-irmão do Armando Nunes. Também lá trabalhava o filho do Armando, Júlio que veio a casar com a Marlene. (A ultima vez que a vi foi em Dezembro num almoço dos Beirenses, em Oeiras.)

Meus pais e o casal Maria Jorge/Sr.Serra, repartiam a casa, para não custar tanto a pagar. Na Beira, devia ter sido nos anos 1955/1956 as casas eram caríssimas. Por isso a Branquinha pode dizer que minha mãe, velava para que a empregada fizesse tudo correcto. Depois da menina arranjadinha, minha mãe ficava a ver a empregada seguir até entrar na Casa de Saúde, quando esta era próximo da nossa casa, na esquinha do Jardim em frente ao S. Jorge (ao lado do Colégio Luis de Camões), na rua do Campo de Basquetebol do Sporting. Só no ano seguinte, nós arranjámos uma casa maior, também em frente ao mesmo jardim, entre o Colégio das Méres e o S. Jorge. A D.Maria Jorge, Sr. Serra e Branquinha foram viver em frente ao Jardim do Bacalhau, do outro lado da casa do Jeorel de Carvalho, pai do nosso grande amigo João Carvalho das Neves, que foi campeão de Moçambique de tiro aos pratos. Gente que nos deixou saudades.

De toda esta gente, só a D. Maria Jorge, a Branquinha e a Marlene ainda vivem. Filha da Armanda é a Céu Portugal, que encontramos nos almoços dos beirenses.

E aqui fica a minha homenagem, a pessoas da Beira.
-Moçambique.

Como eu disse numa entrevista que foi publicada no Diário de Moçambique, talvez quando eu tinha 15/16 anos, sou beirã (da Beira Alta) por nascimento e pelo coração, sou beirense por amor e gratidão.

Afinal coração e amor, amor e coração, é a mesma coisa.



Pela parte do marido, o Sr. Serra, era tia do Julio Nunes e da Armanda Nunes e de outros. Do saudoso Manel, o mais amável dos primos. Pois. É isso. Tinha de morrer cedo, porquê? Ainda me lembro quando estivemos com ele, na sua casa em Joanesburgo, ao virmo-nos embora disse: até sempre. Manel, tu sabias que tinhas um cancro, será que tinhas esperança de fugir, de escapar àquele monstro? Não conseguiste Manel, como não conseguiram outros. Um dia, um dia, aquele cancro morrerá para sempre, não incomodará mais ninguém. E não virão outras doenças graves, não. Nós vamos viver e alimentarmo-nos, evitar o stress na nossa vida, de maneira que as doenças nem se aproximarão de nós.

Era enfermeira da Casa de Saúde da Beira-Moçambique. Era conhecida em quase toda a Beira, se não em toda a cidade. Depois das horas, era chamada para dar injecções aos meninos de toda a gente, sempre que eles precisavam.
Merecia, sempre mereceu ter mais descanso, mas a vida tem destas coisas.

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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O MEU HOMEM TERIA MORRIDO?

ToCortez Fotogafia Olhares - Direitos de Autor 
O MEU HOMEM TERIA MORRIDO?
O meu homem teria morrido? Deixei de o ver depois do meu regresso de férias. Andei uns tempitos sem passar por lá. O calor que tem feito ultimamente impediu-me de sair.
O calor? As pessoas dão sempre as maiores escusas para os seus actos.

Era habitual passar por ali, para atalhar caminho para ir para o meu escritório. Sempre que ia a pé, metia por aquele atalho debaixo do prédio, perto das bombas de gasolina, prédio que por baixo tem uma rua para os carros passarem e parquearem. Parque que com o hábito, se foi fazendo, entre duas grandes avenidas, Infante D. Henrique e Avenida 25 de Abril. E as pessoas passam por ali para encurtar caminho. Como andamos sempre com pressa, mete-se por um atalho. O ditado diz "quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos". Os trabalhos é o mal menor nesta história verídica. Mas, não saber se o meu homem morreu, e a minha consciência vacilar entre acusar-me ou absolver-me por isso, é que me dá vontade de nunca mais me meter por atalhos.
O espaço, o tal espaço que os motoristas usam como parque, grátis, e as pessoas utilizam para passar para atalhar caminho, não tem nem nunca teve, qualquer distico de reserva para parqueamento automóvel. Também nada escrito que afirmasse ou afirme que o parque é para transeuntes. Por isso teríamos e temos de conviver amigavelmente: carros e pessoas.
Quantas vezes mentalmente compus um bilhetinho para deixar no pára-brisas de algum automóvel, cujo motorista, sem pensar nos outros, parqueava de tal forma que não deixava espaço para os transeuntes terem acesso ao passeio da rua seguinte. Egoístas! E pensava: Não há nada pior do que a palavra "Eu", quando se conjuga os verbos Quero, Posso, Mando. e outros assim. Como uma palavra só de duas letrinhas, pode atingir proporções tão grandes e desastrosas!
Não cheguei a deixar nenhum bilhetinho. Ou ia com pressa, ou não tinha papel para escrever. Canetas, tenho o hábito de andar com algumas na mala. Sendo a caneta um objecto valioso, prestimoso e às vezes até prestigiante - se tiver boa apresentação - de nada vale, penso, se não se tiver o tão simples, tão humilde papel.
Quantas vezes tive de passar colada a um carro, com receio de passar no espaço inclinado para a ravina, único espaço deixado livre de carros. Lembrava-me que, se alguém caísse dali, poderia ter morte instântanea, ... ou pior, ficar inutil e sofrendo toda a vida.

Em Dezembro, no último Dezembro, já o inverno se fazia sentir, notei ao passar por debaixo do prédio, uma mini-barraquita feita de zinco, entre os vãos das colunas do prédio. Pensei: sou tão distraída, tão pouco observadora! Isto deve estar ali desde que a oficina de automóveis aqui está! E eu nem me apercebi! E a oficina já tinha desaparecido há uns tempitos. Tinha estado ali por uns largos anos.

No dia seguinte, vi umas almofadas grandes, de sofás, encostadas à parede. Almofadas desgastadas pelo tempo, como o homem que ali estava sentado.
Pensei com a minha ingenuidade : Não, o homem não pode viver ali, ao frio, sem qualquer conforto, sem qualquer pessoa com quem falar, sem contacto humano, sem família. Está ali à espera de alguém!
Depressa me desiludi! Encontrei o homem no dia seguinte, a mexer num contentor de lixo na transversal de uma rua próxima. O que andaria o homem a fazer no contentor do lixo?
- Provavelmente - respondeu-me baixinho a minha ingenuidade - o homenzinho, merecia este nome porque era baixote, um pouco barriguidinho - deitou lixo num saco e descuidadamente deixou cair o relógio. Talvez, quem sabe: Um anel. E a minha parte lógica, sem ingenuidade, começou a falar alto comigo:
- O homem anda à procura de restos: Restos de comida.
- Não, respondi também alto, em resposta à minha parte lógica. Não pode ser. O homem tem a barba mais ou menos cuidada. Está vestido e calçado embora com simplicidade. E tem uma cara normal.
- Então os pobres têm cara anormal? Não podem fazer a barba? Não têm necessidade da roupa e do calçado que são impostos pela sociedade? E então nesta época em que o frio está a começar...
- Pois. E a minha parte ingénua pediu desculpa à lógica. Obrigada por me completares. Que seria de mim se as duas fossem inimigas?
Quando cheguei a casa contei ao meu marido. Falei-lhe do homenzinho que... Ele acreditou de imediato que ele estivesse à procura de...comida.
- Mas comida no lixo? Está estragada, respondi-lhe! Quando se deita comida no lixo, ou está a mais na casa das pessoas - que pena o desperdício - ou está estragada. No contentor do lixo, que fica normalmente ao sol, vai aquecendo. A tampa do contentor, não deixa arejar. O que está certo: Se assim não fosse,  o que seria de nós com as moscas a irem ali dentro, regressarem e voltarem poisando em tudo que é sítio? E no nosso corpo também, já que também "é sítio"! 
Assim que cheguei à minha empresa, mandei de imediato um email a participar à entidade que, parecia-me, seria a indicada para tratar do assunto, sugerindo que o encaminhassem, ao email e ao homenzinho (chamemos-lhe assim, não sabemos o nome dele) para uma instituição apropriada.

TóCortez fotografia Olhares  Direitos de Autor 
Se tratou!!!... o homenzinho continuou lá até há ultima semana de Julho. A entidade não terá culpa, é que as entidades são compostas por pessoas humanas e desumanas. E no fim do mês paga a todas do mesmo modo, sem pôr na balança os bons ou maus actos. Nem o poderia fazer.
Passei por ali mais vezes. Tentei aproximar-me com o coração. Mas o homenzinho nunca foi muito cooperante. Olhava-me de olhos baixos. E só uma vez me lembro de ele me ter respondido: sim, está muito frio. Mas porque não usou o casacão azul marinho, aquela parka de meio corpo, que alguém lhe deixou lá quando ele não estava, e estava em muito bom estado? A camisola que usava, estava safada de velha. A parka ajudaria a enfrentar o frio. E se estava frio! Mas aquele agasalho, ali continuava a seu lado, dobrado em quatro partes, como que esperando mais para fazer a coleção de inverno. Porque o homenzinho parecia ser aptidao para colecionador. Ou teria ficado com o hábito depois de muitos anos de profissão como tal? Foi colecionando garrafões vazios que encontrava no lixo, uma ou outra almofada, cartões.
Há quem colecione selos, postais, caricas. São crianças de todas as categorias sociais: ricos e pobres. Depois de adultos deixam-se disso. Às vezes lá fica um bichinho e, com amor, continua o adulto a colecionar postais, selos, coisas de pouca valia, enquanto outros - os ricos - colecionam quadros de arte, relógios valiosos, jóias e brutos carros ou carros vintage. O meu homem - nome que um dia me saiu ao referi-lo ao meu marido e depois o nome pegou, como pegam os grandes chavões - foi iniciando novas colecções: caixas de plástico onde alguém lhe levava comida. Comida quentinha. Provavelmente algumas vezes feita de propósito para ele: um prato de bacalhau por exemplo. Quem sabe se alguém o teria feito, com amor e carinho, porque se a comida lhe sabia bem, também deveria saber bem ao homenzinho! As caixas de plástico eram de todas as medidas, de toda a forma, de todos os feitios. Com tampa, sem tampa. As que não tinham tampa, teria a comida sido entregue tapada com papel de alumínio? Acredito que sim. 
Acredito que, preocupada com aquele arsenal de caixinhas, caixas, caixonas, lhe tivesse dito: ponha dentro de um saquinho de plástico - que ele colecionava às centenas - e deixe ficar aqui de lado. Quando a pessoa lhe deixar comida - pois o homem não parecia ter telemovel e não seria possível combinarem o momento da entrega - essa pessoa leva o saco que tem algumas caixinhas, que servirão para trazer comida da pr
óxima vez. Além de olhar para um lado e para o outro, ou abanar muito ao de leve a cabeça como se tivesse compreendido, nunca o fez.
- E o cobertorzinho que alguém lhe ofereceu? Eu olhava, de soslaio, para a porta de zinco da tal casinhota, que raramente se encontrava entreaberta. Não só olhava de esguelha como apresadamente, não fosse o homem sentir que eu estava a invadir a sua privacidade.E a porta só estava entreaberta, raras vezes, e essas quando o meu homem ali estava sentado nas suas almofadas ou numa espécie de prateleira de madeira, onde se acumulava não só o peso do seu corpo, como as suas coleções. A prateleira tinha os lados assente em pedras, de certeza carregadas para ali por ele, com a sua habilidade de homem das cavernas que tem de aprender a sobreviver.
- Como é que o meu homem pode viver sem saber o que se passa no mundo, aquilo que tomamos conhecimento através da televisão, da rádio, dos jornais, das revistas, dos livros? Não se pode alimentar da informação que a sociedade passa de boca em boca! Fiquei mais descansada quando, ao sair mais tarde do escritório, nas tardes tornadas noites pelo dia ser tão curto, vi o meu homem num estabelecimento comercial, perto do seu domínio, a ver televisão, de pé, com sacos de plástico, vazios, na mão. Mas a minha preocupação continuou neste assunto, até que... adivinhem - o meu homem estava numa tarde solarenga, debaixo dum murito do jardim das galerias do prédio onde eu tinha o meu escritório, a desfolhar papeis, revistas, jornais. Uau! Senti-me feliz. Fui eufórica compartilhar com o meu pessoal. O meu homem sabe ler. E preocupa-se com o que o rodeia. Não fala, é certo, mas sabe falar, sabe ouvir, sabe andar, não parece tonto. É apenas uma pessoa infeliz. Talvez não tão infeliz por ser pobre, mas infeliz por não ter família que lhe dê amor. Decidi que era essa a razão por que ele estava desfasado da sociedade actual.
- Como é que o meu homem pode sobreviver se ficar doente?
-  Ele parece rijo, respondia-me o meu marido. A maneira simples como vive, sem stress, deve enrijá-lo.
Aceitei. Pouco poderia fazer além de aceitar. Ou poderia? Talvez. Mas a falta de conversa entre mim e o meu homem, que se negava a entabulá-la, evitou conversas, evitou que eu reclamasse mais da entidade oficial, também até porque, a esperança me dizia: as pessoas levam o seu tempo. E o tempo corria veloz, para eles e para mim. Não sei se o tempo também corria apressado para o meu homem...
Apesar de estarmos no distrito de Lisboa, onde o frio não é tão intenso como no Norte de Portugal, apesar de estarmos num lugar lindo e especial, com uma baía encantadora, não obstou a que neste inverno principalmente, as noites se tornassem gélidas. Meu marido dizia que era eu que estava a sentir uma parte do frio para que ( o meu homem como eu dizia, o homenzinho dizia o meu marido) não sentisse todo o frio na totalidade.
- Onde dormiria o meu homem? O espaço dentro da casinhota de zinco, não era mais largo do que um metro, isto na parte mais larga, e depois estreitava um pouco. E de comprimento, não teria mais de metro e meio. Ora o homem parecia ser mais alto do que um metro e meio. Para ali dormir teria de ser enroscado. Como dormem os cães. E os gatos. Os homens não têm de se enroscar tanto. Só às vezes e nunca por obrigação.
Desde o final do primeiro trimestre deste ano, deixei de precisar de passar por ali. A necessidade de férias era total. Tirei férias, faseadas em Abril, Maio e Junho. Uma semana em Abril e Maio e duas semanas em Junho. O calor impediu-me de ir logo, digo eu. Ou será que o meu amor pelo meu homem esfriou enquanto estive de férias? Esta é a verdade, não fui logo.
Ficou combinado de véspera com meu marido, que na tarde seguinte iriamos dar uma voltinha a pé, afinal, com o calor, tinhamos afastado esse hábito. Esse hábito? Hábito é rotina, e rotina nunca chegou a ser. Há sempre as desculpas: agora está frio, agora está calor. E mais uma escusa: Como sabes, dizia eu para meu marido, eu detesto vento.
Já era tempo de ir, eu estou a ficar gorda, horas e horas seguidas, de dia e de noite, a escrever no computador, ou a falar (menos do que desejaria) com alguns familiares e amigos no skype.
Disse para mim própria: então se tenho a possibilidade de ir passear, tenho de ter possibilidade de ir ver o meu homem. Não é só lembrar-me com preocupação, de vez em quando, mesmo nas férias. Como terá passado? Será que algum benfeitor o ajudou? Será que conseguiu tirar do contentor, alguma coisa que o ajudasse? Esta minha pergunta mental, repugnou-me, mas era sequência do que vi o meu homem fazer algumas vezes. Será que o seu dinheirito teria chegado para se alimentar durante este lapso de tempo? Suponho que tivesse uma magra pensão de 200 e tal €uros, porque cheguei a vê-lo, no fim de um qualquer mês, regressar com uma qualquer comprazita, num saco de um qualquer espaço comercial de vendas.
Eu queria ir sózinha. Meu marido só tinha ido comigo duas ou três vezes. Este era o meu homem, eu é que o tinha descoberto, eu.... eu gostaria de ser D. Isabel de Aragão. Meu marido seria D. Dinis? Não sei se gostaria, Não, prefiro o meu, o meu marido que não é rei. Também, e nisso tenho pena, não é poeta, como era D. Dinis. Nem mandou semear o pinhal de Leiria! (Quem sabe se a antever que uns séculos mais tarde a madeira do pinhal serviria para construir as naus das descobertas. Mas nem eu era a Raínha Santa nem ele o Rei.  Nem eu tinha géneros alimentícios (detesto o nome esmolas) que se transformavam em rosas nem meu marido era um Rei, (D. Dinis seria meio tirano?) que me perguntava (e eu da História nunca ouvi o som da sua voz) : O que levais no vosso manto Senhora?
E fui. Ainda era uma estirada entre a minha casa e o espaço ocupado pelo meu homem.
Tó Cortez fotografia Olhares - Direitos de Autor 
De longe vi que não se encontrava. Nem as suas coleções de garrafões, caixinhas e sacos de plástico. Aproximei-me num misto de emoções. Será que - até que enfim - a entidade, a sociedade, fosse quem fosse, teria arranjado uma nova morada para o meu homem? Será que ele teria agora refeições regulares? A tempo e horas? Teria a companhia necessária para uma vivência a que desde as cavernas o homem procurou? A casinhota estava com a porta escancarada. Lá dentro ainda as almofadas velhas de tecido estafado. Olhei em volta. Mais para diante. Na esquina, atrás de uns arbustos, ao lado do passeio da Avenida 25 de Abril, mal empilhados, jaziam os seus pertences, as suas coleções de caixinhas, de garrafões vazios, de cartões meio esfarrapados, de alguns frascos de vidro, algumas roupas cossadas, cobertores ou bocados deles, desgastados pelo tempo. Pareciam mudos à espera de um carro do lixo que passaria depois da meia noite, e ruidosamente os arrebatasse para serem revolvidos num torvelinho que os faria gemer de dor.
Ainda perguntei algumas vezes: Onde está o meu homem? Para onde levaram o meu homem? Mas era apenas a voz da minha imaginação.
A minha parte lógica tinha vindo ilógicamente perturbar-me. Nem a deixei falar. Gritei-lhe: Não, não pode ter morrido. Se não morreu com tanto frio, não morria agora com todo este calor! Mas arrependi-me e disse baixinho: Será que morreu? Será que o meu homem morreu?
Quem souber que me responda. Sim?

Celeste Cortez

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O meu pecado

30 DE JULHO DE 2011: 2ª. EDIÇÃO DO ROMANCE
"O MEU PECADO, brevemente. 

A autora Celeste Cortez. Residiu em África 42 anos - 25 dos quais na Beira (2 em Vila Pery). 

Não é o meu pecado, leitor.
Nem o teu.
Nem o seu.
É o pecado de que todos se penitenciam. Até o velho padre! Quem diria! Será ele culpado?
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Pequeno extracto de um livro de 400 páginas. O MEU PECADO, registado na Sociedade Portuguesa de Autores sob o nº. 24.698, a 24-09-2006. Publicado em Agosto de 2007. Segunda edição a sair em 2011. Brevemente. Peça o seu exemplar.
- Deus me valha, Deus me valha. Deus perdoai a esta gente má, que estão a difamar as melhores pessoas desta terra. Como é que isto foi possível, Santo Cristo? Tanta maldade neste mundo. Senhor, perdoai-lhes que não sabem o que dizem.
E o bom do velhinho foi passando as contas do seu rosário, interrompendo ao fim de cada Avé Maria para pedir perdão para os que inventaram tanta maldade.
Mas passados uns instantes, como que picado por uma abelha, apressou o passo quanto era possível ao seu reumatismo e foi dizendo como se falasse paa os botões da sua batina, sem olhar para a senhora Gertrudes:
- Vou falar com o ...............
A senhora Gertrudes ia a abrir a boca para lhe dizer que o almoço ficaria pronto em menos de meia hora, mas, nessa altura, ouviu a carroça com a mula a sair do pátio da paróquia.
Gemendo de dores das suas articulações, foi-se chegando à cozinha para acabar o almoço que tinha deixado adiantado quando de manhã tinha saído para a feira. Antes lá não tivesse ido, disse em voz alta. E completou: Para ouvir coisas destas... Mas não pode ser verdade. Não é verdade. Malditas más línguas, línguas peçonhentas, rematou zangada.

Reprodução interdita sem autorização por escrito da autora.







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