quarta-feira, 7 de maio de 2014

poema de CESÁRIO VERDE e breve análise























(POEMAS que fazem parte de: Sentimento de um Ocidental:Avé Marias,Noite fechada,Ao  gás e Horas Mortas) de Cesário Verde 1855-1886


                                      AVÉ-MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
UMA BREVE EXPLICAÇÃO DO POEMA - breve por falta de espaço, por CELESTE CORTEZ.

Neste poema Cesário Verde retrata com exactidão e realidade um ambiente melancólico, triste, escuro, não só devido ao anoitecer, mas à própria cor monótona e londrina (Londres está normalmente com nevoeiro) característica de bairros fabris, o que provoca ao poeta enjoo, perturbação, melancolia, chegando mesmo a despertar-lhe um desejo absurdo de sofrer.
A sua mente vagueia, deseja talvez estar naqueles lugares: exposições e capitais de países tais como: Espanha, França, Alemanha, Rússia, o mundo! Invoca crónicas navias: Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Só poderia ser ressuscitado, porque se passaram séculos... visto que Cesário Verde nasceu em 1855 e em 1886 com apenas 31 anos faleceu. 

Interessante como descreve os táxis da época, ou seja as parelhas de mulas ou cavalos: "Batem os carros de aluguer ao fundo". 
Às portas (das lojas) enfadam-se os lojistas! Por falta de clientela. 
Galhofeiras, (galhofa é boa disposição, riso, faladoras) as varinas, mexem as ancas. Gordas ou magras, as varinas terão de mexer as ancas para segurar a canastra na cabeça, para equilibrar, quer levem peixe quer levem os seus filhos pequenos na canastra.
As gatas parecem miar mais do que os gatos. Seja como for, gatas terá de rimar com fragatas e gatos não rimaria. E o peixe podre gera os focos de infecção, sem sombra de dúvida. Por isso o próprio poeta veio a morrer tuberculoso, doença daquela época.

Celeste Cortez. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Que noite serena - Álvaro de Campos heterónimo de Fernando Pessoa

Que Noite Serena!


Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado — o que foi aqui de Lisboa — me surge...
O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,
E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.
Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro-me mas esqueço.
E dói, dói, dói...
Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.
Álvaro de Campos,(heterónimo de Fernando Pessoa) in "Poemas"

O sujeito poético evoca o passado, que se caracteriza como calmo, suave, sossegado, bom, como vemos nos versos: “Suave todo o passado”, “O sossego de outrora/Sossego de várias espécies” e “E tudo bom e horas/De um bem…”. 
O poeta refere serem bons esses tempos, porque não se preocupava com o futuro: “A infância sem futuro pensado”.


Entretanto a vida mudou por sua culpa e pergunta a si próprio: “O que fiz da vida”? E dói, dói, dói. Esta repetição de “dói” refere o sofrimento do poeta ao recordar a sua infância feliz e a impossibilidade de voltar a vivê-la. A infância (boa ou má)m de nenhum de nós,  não consegue ser repetida. O tempo não volta atrás.
Parem com isso dentro da minha cabeça, diz ainda o poeta: São as recordações que atormentam o sujeito poético. 


E muito mais há a dizer deste poema, na sua análise e interpretação de português, mas o espaço de que dispomos é pequeno. 

Aulas de poesia na Actis – Celeste Cortez 



terça-feira, 29 de abril de 2014

O elevador de Santa Justa - de Vasco Graça Moura(feito em 1993)



POEMA DE VASCO GRAÇA MOURA (n. 1942-2014)
Imagem muito fora do normal do elevador de Santa Justa (Foto de Tó Cortez). 
podes caber à larga e não à justa no elevador de santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascensional.

podes subir ao miradouro se a altura não te assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.

no tejo há a barcaça, a caravela, a nau, o cacilheiro, a fusta,
luzindo à noite numa memória intensa e desigual.
com o cesário dorme a última varina, a mais robusta.
não é para desoras o elevador de santa justa,

arrefece-lhe o esqueleto de metal,mas tens o dia todo à luz do dia.  não faz mal.



poema de VASCO GRAÇA MOURA - Para uma canção de embalar

para uma canção de embalar  (in O Concerto Campestre)
de Vasco Graça Moura 

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras, 
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo

e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ao VISITANTE Nº.50.000 deste blogue.


Ao visitante Nº. 50.000 deste blogue, venho dizer-lhe que não passou despercebido. Aqui me tem a felicita-lo, a dar-lhe as boas vindas sempre que queira voltar.
Viva a vida intensamente pensando que este pode ser o seu último dia.

HOMENAGEM A VASCO GRAÇA MOURA (03.01.1942 - 27-04-2014)

VASCO GRAÇA MOURA 
(03-01-1942-27-04-2014) *

  Uma lágrima rebelde caiu num sentimento de tristeza pela partida de Vasco Graça Moura, provavelmente o escritor que mais marcou expressivamente a literatura do nosso tempo, a par de Jorge de Sena, este mal conhecido ou desconhecido mesmo do vulgar cidadão e que ainda hoje, tantos anos após a sua morte, não tem o lugar que merece no mundo cultural português.   

          Conheci Vasco Graça Moura, não como gostaria de o ter conhecido: É pá, tu cá tu lá, como se costuma dizer. Digamos que apenas lhe apertei a mão e conversei uns momentos breves, num Encontro de Escritores, no Instituto Superior em Leiria, a 28 de Janeiro de 2008. Poderiam ter sido uns momentos mais longos, pareceu-me mesmo que ele teria ficado sem lanche para me ouvir, mas preferi não o fazer. Afinal quem era eu, apenas tinha dado à luz um romance e ele, o grande homem da literatura teria muito mais para fazer. A sua simpatia e educação cativaram-me, não esquecendo que tinha adorado ouvi-lo na poesia dedicada à sua filha Joana, a quem daqui endereço o meu sentir, assim como a todos os seus familiares. E foi esse o objecto da nossa conversa, a referida poesia e a maneira tão natural e tão expressiva como a disse.
QUE DESCANSE EM PAZ.

POESIA DE VASCO GRAÇA MOURA - EM OUTRAS PÁGINAS. 

* Aos menos atentos: A data do nascimento e a data do falecimento. 


quinta-feira, 24 de abril de 2014

POETA EUGÉNIO DE ANDRADE (de seu nome: José Fontinhas)

Analisado por Celeste Cortez (aulas de Poesia na Actis-Universidade Sénior de Sintra e na Academia da C.V.P. - Cascais

É URGENTE O AMOR

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.                     
É urgente destruir certas palavras
Ódio, solidão, crueldade,            
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente permanecer.

Este poema demonstra um sentimento profundo. O poeta fala como se fosse um narrador.
O que quer o poeta dizer com estas palavras? -   
É urgente o amor; 
É urgente um barco no mar;liberdade, salvação?
Destruir certas palavras.
Quais as palavras que o poeta nos sugere que devem ser destruidas? 
Destruir muitas espadas?
Em que verso é que ele diz ser urgente inventar alegria?
Multiplicar (quantas vezes, não diz, mas…,
Multiplicar o quê?
Beijos significa felicidade? Amor?

POETA – EUGÉNIO DE ANDRADE - Cont Poema URGENTEMENTE -

Multiplicar as searas ? (uma palavra para searas ? abundância;

Descobrir rosas, rios, manhãs claras – será que se refere à natureza no seu esplendor? Ou poderá ser: amizade, beleza?

O poeta sugere-nos, faz-nos ver o caminho para um mundo de felicidade e amor, eliminando o negativismo, os lamentos desnecessários; (em que verso?)

Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer… por isso é URGENTE O AMOR, o amor dentro de nós. Construí-lo todos os dias.

E… PERMANECER no amor. 

É urgente cumprirem-se estas palavras do autor. Sem isso está comprometido o nosso futuro, não haverá harmonia nem paz.
Importa redescobrir o nosso lugar no mundo, na parte que nos rodeia, à nossa volta, melhorando a nossa vida (interior);

- O que faremos para encontrar a felicidade e o amor, na família, na vivência com os amigos? Vamos deixar esta resposta para cada um de nós, para analisar o seu interior. Para viver uma vida mais feliz-  
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