sábado, 14 de janeiro de 2017

homenagem ao Professor Doutor CARLOS-ANTERO FERREIRA


FALECEU O PROFESSOR DOUTOR CARLOS-ANTERO FERREIRA

Ao poeta Carlos-Antero Ferreira. Um poema seu escrito em Abril do ano 2015:

o Poema Genial do Professor Carlos-Antero Ferreira
A SECRETA PINTURA
Para o Luís Athouguia
NO DIA PRIMEIRO O OLHO RECEBEU
o esplendor original e tudo que mostrava
ser fruto da criação: possuir forma e cor,
enquanto as divindades nasciam
inventadas de afluente maternidade
em intrépidas sagas e
imponderáveis alcovas de
antiquíssimas mitologias.
Mais tarde, mais tarde,
os séculos e os milénios agenciariam,
― como se hoje fora,
rigorosamente arrolar as existências
e disciplinadamente organizar o património
dos seres e das coisas,
segundo normas e regras rígidas
e severos critérios.
Ninguém aliás se deu conta
E ninguém ainda sabe,
De quem foi a ideia original
E a ordem para que assim se cumprisse!
Na aurora mais que primitiva,
de pé no cimo da Montanha,
tendo na mão aberta e estendida o olho que
recebera o esplendor primordial,
e das nove Musas rodeado,
um jovem cuja nudez uma leve túnica cobria,
recebia a revelação de que toda a matéria
terá forma e terá cor.
Perante macia folha de papel de algodão
e tendo nas mãos suaves pastéis,
o mesmo jovem que uma leve túnica cobria
havia de criar sem saber que o fazia,
em magnífica desordem
― mas com sábia sabedoria!
o léxico de todos os mistérios
o inventário de todos os enigmas.
No laboratório da secreta pintura,
acumulam-se códigos e referências a
rituais, sacrifícios, oferendas,
oráculos, ficções de magia,
oníricas visões,
cintilações do cosmo,
epopeias.
Passeiam-se Orfeu e os argonautas,
ciclopes e titãs,
e os imortais,
e os deuses dos ventos enlouquecidos,
e as quatro idades
e os dois hemisférios,
e todos os engenhos,
e antes de todos
o Alfa e o Ómega,
o infinito no finito,
Pássaros bisnaus insinuam-se
pela gula dos incautos
e nas funduras dos mares de Poseidon
chocam-se fragmentos de coral
e seres de todo inexplicáveis
movimentam-se no silêncio pesado
do tempo circular e um cometa
― ou será Pégaso?
passa fora dos limites do quadro!
Não é casual ou fortuito
o fogo das forjas de Hefesto,
e pela fome de imortalidade
antagonizam-se e lutam os arquétipos,
levantam-se tótemes,
invocam-se as divindades.
Há muito Epimeteu abriu a boceta de Pandora,
mas com a esperança que ficou no fundo
há-de redescobrir-se o perfume das flores
e o fresco orvalho nas manhãs dos bosques
― mas atenção!
que apesar das felizes dádivas das Ninfas,
há lágrimas ocultas
prontas a despenhar-se no abismo
pelas faces lívidas de máscaras venezianas,
enquanto o Pintor,
das formas muitas universal inventor,
e deveras prevenido do fatal exemplo de Babel
pede de empréstimo a fundo perdido
― máxima ousadia!
inspiração maior aos 22 capítulos
do grande mural do Livro do Apocalipse,
que o apóstolo João em Patmos escreveu.
Carlos-Antero Ferreira
Casa do Monte, Monte Estoril, em Abril de 2015

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FERNANDA DE CASTRO (1900-1994) poemas



Reminiscência

"...Lisboa, Santarém, Porto, Leiria..." 
(eu sabia de cor toda a corografia)
O Senhor Inspector
deu-me a nota mais alta em geografia
e disse gravemente:
- "Continua. Hás-de ser gente..." -


"Ângulo recto, agudo,
cateto, hipotenusa..."
(Já manchara de giz a minha blusa
mas respondia a tudo
e a Professora sorria
enquanto eu papagueava a Geometria)


- "...D.Sancho, o Povoador...
D.Dinis, o Lavrador...
(Tinha então boa memória,
sabia as datas da história...)
1380
1640
1143
em Arcos de Valdevez...
(Muito bem, a pequena é simpática).


- "Vamos lá à gramática." -
"...E, nem, não só, mas também...
conjunções copulativas"
(Eu pensava na alegria
que ia dar a minha mãe,
nas frases admirativas
da velha D.Maria,
a minha primeira mestra:
- Tão novinha e ficou "bem"!" -
e esta suavíssima orquestra
acompanhava, em surdina,
o meu primeiro exame de menina
aplicada, orgulhosa e inteligente...)


- "Vá ao quadro, menina! Docilmente
fiz os problemas, dividi fracções,
disse as regras das quatro operações
e finalmente
O Senhor Inspector felicitou-me,
quis saber o meu nome
e declarou-me
que ficara "distinta" sem favor.


Ah! que esplendor!
Que alegria total e sem mistura,
que orgulho, que vaidade!
Olhei de frente o sol e a claridade
não me cegou.
As estrelas, fitei-as como iguais.
Melhor: como rivais,
e  a Humanidade
pareceu-me um rebanho sem vontade,
uma vasta colónia de formigas...
(As minhas pobres, tímidas amigas!)


Pouco depois, em casa, 
a testa em fogo, o olhar em brasa,
gritei num desafio
à Terra, ao Céu, ao Mar, ao Rio:
- "O mãe, eu já sei tudo!"
No seu olhar tranquilo, de veludo,
no seu olhar profundo,
que era todo o meu mundo,
passou uma ironia tão velada,
uma ironia
tão funda, tão calada,
que ainda hoje murmuro, cada dia:
"- Ó mãe, eu não sei nada!"

MÃE - TANTAS SAUDADES


                    
Mamã,

Nasceu em 1917, teria agora cem anos. O que são 100 anos nesta época em que imensas pessoas perfazem essa idade? Mas a mamã deixou-nos quando tinha percorrido ainda um caminho menos longo, apenas com 68 anos acabados de fazer!
Embora eu já fosse senhora da minha vida e mãe de filhas, não quer dizer que não me fizesse falta. Uma mãe faz sempre falta. 
Mas fez também falta às pessoas a quem ajudava sem querer dar nas vistas:
 À Cândida que era cega e não tinha dinheiro para viver. A mamã comprava uma galinha, condimentava-a saborosamente, cozinhava-a com arroz e mandava entregar a casa da Cândida dois ou três bocados, dos maiores... e que não tivessem osso.
Ao Larula, que, por ser doente mental, se esquecia das horas de regresso a casa e acabava por encontrar uma palheira (casa de fazenda), da nossa quinta onde se guardava a palha para os animais, os objectos de lavoura. Logo que a mamã se apercebeu que o Larula procurava a palheira, mandou por lá uns fardos de palha para fazer de colchão, uns cobertores e até um travesseiro.
Quem seria capaz de pagar da sua magra pensão mensal a um trabalhador que preparasse um grande espaço de terra e plantasse "flores para os finados"? E a mamã, com muita dificuldade, ia regando as flores, ia dando-lhes ânimo para crescerem e serem bonitas. Chegada a hora, pagava mais uma vez a quem lhe fosse cortar as flores e fizesse umas coroas ou ramos e mandava entregar a casa das pessoas que conhecia cuja pensão era bem magra  e que teriam de comprar as mesmas para por na campa dos seus finados.
São tantas as recordações que me vêm à memória e me deixam saudade, querida mamã. Neste momento recordo uma pequena parte de um poema de Fernanda de Castro (1900-1994) que soube descrever o que são saudades:     

As coisas falam comigo

numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.      

Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"   

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DIA DE REIS - REIS MAGOS - DIA DO NASCIMENTO DE MEU PAI, O MEU REI.

Pintura de El Greco (1541/1614 (pintura de 1568 +-)
os REIS MAGOS 
- e O MEU REI, MEU PAI.  
          Quem eram os Reis Magos? 
          No livro dos Salmos (Sl.71,11) "Os Reis de toda a terra hão-de adorá-Lo". Adorá-Lo, ao Menino Jesus. 
    Assim sabemos que estes Reis vieram do Oriente montados nos seus camelos e se dirigiram a Belém para ofertar os seus presentes ao Menino. Tinham sido guiados por uma estrela. 
          Os seus nomes eram Baltasar, rei da Arábia, de cor escura, era mouro, de barba cerrada, com quarenta anos de idade, partira do Golfo Pérsico na Arábia. Melchior rei da Pérsia de cor clara, partiu de Ur, terra dos Caldeus, era um velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas. Gaspar, rei da Índia de cor amarela, era um jovem de vinte anos, robusto, partiu de uma distante região montanhosa perto do Mar Cáspio. 
          O ouro representava nobreza e era presente oferecido apenas aos reis. O incenso ou olíbano representava a fé, a espiritualidade e era presente oferecido apenas aos sacerdotes. A mirra representava perfume suave e sacrifício, oferecendo-se aos profetas. Era usada para embalsamar corpos e representava a imortalidade (neste caso da alma). 
          O Rei Mago MelchiorEstes três Reis, simbolicamente representavam os Reis de todo o mundo, porque representavam as raças humanas
          Atribuiu-se à visitação dos Magos o dia 6 de janeiro, poderia ter sido em outro dia mas não poderia ter sido no dia do nascimento do Menino, porque houve distâncias a percorrer.  
          Devemos aos Magos a tradição de oferecer presentes no Natal, em celebração do nascimento de Jesus. Há muitos países onde a troca de presente não é feita no Natal mas sim no dia de Reis, dia 6 de Janeiro. Nesta celebração também há muitos pais que se fantasiam de Reis Magos para a entrega de presentes, bem diferente da vestimenta do Pai Natal. 
          Quanto aos seus nomes, Gaspar significa "Aquele que vai inspecionar. Melquior ou Belchior quer dizer "Meu Rei é Luz". Baltasar é "Deus manifesta o Rei".
          As relíquias dos Reis Magos foram transladadas no século VI de Constantinopla (Istambul) até Milão (Itália). Em 1164, sendo já venerados como santos, as relíquias foram colocadas na Catedral de Colónia, na cidade de Colónia (Alemanha), onde ainda se encontram.

          
          Se você tem um Rei de quem gostou muito, eu também tive um Rei que continua dentro do meu coração, meu pai, que nasceu em 1915 e partiu em 1973. Relembro-o tantas vezes que nem tem conta. 
          O meu Rei Pai, nasceu também no dia de Reis, no dia 6 de Janeiro. Por isso hoje lhe presto esta pequena mas sentida homenagem. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

natal de quem - poema de joão coelho dos santos

Poema: "Natal de quem?"

Mulheres atarefadas 
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

-Oh mãe, estou pr'a ver 
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio, 
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:

- Então e Eu, 
Toda a gente Me esqueceu?

Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.

E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar

E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!


(João Coelho dos Santos in Lágrima do Mar - 1996)
O meu mais belo poema de Natal

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

NOVO SECRETÁRIO GERAL DA ONU - ANTÓNIO GUTERRES



Pobreza extrema, atropelos aos direitos humanos, conflitos de toda a ordem, exigem alguém cujos méritos passem por uma visão precisa da complexidade
 dos muitos desafios que hoje se colocam à Comunidade das Nações. Do todo, avulta uma preocupação maior; a paz regional e universal, e esta exige o diálogo permanente com vista ao estabelecimento de pontes e de consensos alargados e duradouros.

António Guterres é um homem preparado, um homem com um sentido humanitário incomum, um ser sensível aos dramas actuais com que se debate a humanidade. Um homem que reúne o unânime apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que aclamou a sua  recente nomeação para o mais importante posto no conserto das nações.

Portugal orgulha-se deste seu filho e os portugueses pedem a Deus que o ilumine e ajude no hercúleo esforço que dele se espera para mitigar tensões e injustiças, a bem da paz global.

António Guterres consubstancia, em si, a vocação universalista e humanista de Portugal e dos portugueses, o que faz crer que a sua acção à frente da ONU virá a constituir-se como uma preciosa contribuição para a sempre desejada paz no mundo.

Estou certo que todos os que integram o Circulo Universal dos Embaixadores da Paz, a que me honro de pertencer, vão estar com ele na prossecução deste objectivo maior. Assim Deus o ajude. 


Eugénio de Sá
Sintra, Portugal
11 de Dezembro de 2016

JOSÉ RÉGIO - LITANIA DO NATAL

















Litania do Natal, 

       de 

JOSÉ RÉGIO

A noite fora longa, escura, fria. 
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus...»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus...»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus...»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.
E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»
De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus...»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.
            

José Régio, in 'Antologia Poética' 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...