POEMA: TESTAMENTO,
de Alda Lara
(gostaria de tê-lo escrito. Costumo dizê-lo
em sessões de poesia)

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus
brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem
esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o
meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em
Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São
para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas
loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que
são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe
os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...