terça-feira, 13 de setembro de 2016

REFLEXÃO



Silêncio como um trovão


Caríssimo Papa Bergoglio!

          O destino quer que uma terra bendita nos una nos sentimentos e nas intenções, a Terra de Israel. Mas, ao mesmo tempo, e com imenso sofrimento, o destino quis que houvesse também uma terra maldita, a dos campos de extermínio, onde no coração da Europa, nos anos do Shoah foram exterminados milhões de inocentes.
          Escrevo-lhe, em nome dos judeus italianos, poucos dias antes da sua visita ao campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Um evento muito esperado, que chamará a atenção de milhões de pessoas para a página obscura da história que é uma ferida aberta no coração da Europa e continua a questionar as consciências de todos os cidadãos preocupados, do fundo do coração, com a defesa da paz, da liberdade e da democracia.
          Gostaria de lhe dizer que apreciei muito a sua escolha de não pronunciar um discurso formal mas concentrar a emoção desta visita, tão significativa, num longo e intenso silêncio. Uma forma de oração que clama e fará eco, tenho certeza, aos gritos e à dor das muitas crianças, mães, jovens, homens que daquela terra nunca voltaram. Uma sua oração que, unida às muitas nossas, transformará aquela terra de sofrimento em lugar de culto. A sua visita torna-se o emblema de um percurso introspetivo de redescobertas e defesa de valores mais profundos — respeito pelo outro e pela vida — que hoje novos e terríveis inimigos parecem pôr em questão juntamente com as formidáveis conquistas que a Itália, a Europa e o mundo inteiro souberam realizar a partir do pós-guerra. Fruto de um pacto entre gerações nascido precisamente das cinzas de Auschwitz-Birkenau e de outros lugares de morte daquela época, a democracia, a integração europeia e a existência de Israel são a prova do longo caminho percorrido a fim de não esquecer a dramática lição do Shoah e para garantir a todos, sem excluir ninguém, um futuro próspero e melhor.
          Nunca como hoje as religiões e os seus líderes são chamados a ser um exemplo para todos os cidadãos, prescindindo de cada pertença ideal, espiritual e cultural. Por conseguinte, à sua espera tem um longo caminho de compromisso e colaboração na consciência de que os elementos que nos unem são mais numerosos e significativos do que os que nos dividem. Só assim as terras malditas do extermínio e do ódio poderão assumir a santidade de todos os mártires que em nome do amor e da tolerância aí sacrificaram a própria vida. Bendita seja a nossa recordação.
*Presidente da União das comunidades judaicas italianas.

ESTA CARTA FOI ENVIADA A S. SANTIDADE O PAPA FRANCISCO, pela Presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas (Ucei), Noemi Di Segni, aquando da sua visita aos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, na sexta-feira, 29 de julho, na sua visita à Polônia, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude.

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