terça-feira, 21 de junho de 2016

JACARANDÁS - DO ROMANCE O MEU PECADO

foto de António Cortez, para o meu album particular. 
E COMO GOSTO DE JACARANDÁS, sem dar por isso, já me referi a eles em dois romances. Em "O Meu Pecado" e em "Mãe Preta". Deixo hoje um pequeno extrato de "O Meu Pecado", onde refiro o jacarandá:
..." Mas a Beira era a Beira, era uma cidade, e eu tinha sido colocado numa pequena localidade, uma pequena vilória de nome Vila Pery, nome derivado de Pery de Linde, e para lá segui num comboio que parou nas estações do Dondo, Cafumpe, Vila Machado, Amatongas, em Gondóla, na tal Gondóla que deu tanta confusão quando perguntávamos pelas gôndolas que nunca existiram no Chiveve – apenas na nossa imaginação - e, por fim, Vila Pery, onde eu ia apear-me.  
Sabia que Vila Pery se situava num planalto, o Planalto do Chimoio, que tinha um clima estupendo, fresco no Inverno e não muito quente no Verão. Aquilo que nós chamamos de clima ameno. Que pena não ter praia! - disse para comigo. Já estava com saudades da cidade da Beira e ainda nem tinha chegado ao destino! Será que teria ficado encantado por ter bebido a água do Chiveve?
Esperava-me um carro do Quartel. A primeira impressão da vila foi de admiração, que fui confirmando à medida que a ia conhecendo melhor. Não era grande é certo, mas era diferente de todas as vilas de Portugal, pela modernidade da sua arquitetura. E, quanto a macacos a saltarem nas árvores, de certeza que os haveria naqueles matos que rodeavam a vila.    
Foto de António Cortez para o meu album particular. 
Vivendas de um ou dois pisos, com jardinzinhos. Ruas larguíssimas que não ficavam atrás das mais largas avenidas de Portugal. Vim a saber que os enormes jacarandás tinham vindo propositadamente do Brasil a pedido de um Beirense, quando em Vila Pery exerceu funções administrativas, o Sr. Oliveira da Silva, mais tarde Presidente da Associação Comercial da Beira.As suas flores lilás clarinho, quando caíam iam cobrindo os largos passeios com as suas belíssimas flores. Às vezes, com o vento, voavam qual bailarinas em pontas de pés e num rodopio musical atapetavam também o alcatrão da rua, que ficava alcatifado de lilás e, quando as pisávamos, faziam um som estrepitoso como se a vila estivesse em festa. Parecia um cenário de um belo filme, mas lembrei-me que são os artistas que fazem belos cenários a copiar a natureza mágica.
Recordei-me que em miúdo quando fui pela primeira vez a Lisboa, fiquei deslumbrado com as lojas ao longo das avenidas, com as luzes ao escurecer, mas não achei graça às ruas. Perguntei a minha mãe porque as tinham pintado de preto. Quando ela me respondeu que era alcatrão e que o “alcatrão era preto”, respondi-lhe que as ruas de Carregal do Sal, nossa terra, eram mais bonitas porque eram “forradas” com pedras de duas cores, bem clarinhas, que eram lavadas pela chuva e brilhavam quando lhes batia o sol.
É claro que pela resposta fui considerado quase um menino-prodígio. A história foi contada e recontada, à família, aos amigos dos meus pais, às criadas da nossa casa que por simpatia, a transmitiram a algumas pessoas de Travanca de S. Tomé e de Alvarelhos que vinham trabalhar no Solar de Cabriz ou na nossa lavoura. Estes, por sua vez, sentiram-se na obrigação de a transmitir a outras aldeias. Até agora nunca me preocupei em contar isto aos meus filhos ou netos, quando os tiver, porque com tanta gente conhecedora desta gracinha, de certeza que eles virão a tomar conhecimento. Será que nessa altura ainda terá alguma graça? Não será que a bem do progresso, as ruas de Carregal do Sal não serão também alcatroadas, “de alcatrão preto”, dentro de poucos anos.  
     Passaram-se alguns anos após o meu deslumbramento pelas luzes de Lisboa e o meu decepcionante olhar ao chão das suas ruas. Habituado agora a que as ruas das cidades fossem, no geral, alcatroadas, não me admirei que as ruas de Vila Pery fossem de “alcatrão preto”, mas as flores dos enormes jacarandás ao cair nas ruas suavizavam a cor do chão, e os jardins das vivendazinhas amenizavam a paisagem envolvente.  
     Ah, que se eu fosse dono do Mundo, as ruas seriam pintadas de cores garridas, às riscas, aos quadrados, às pintarolas! Pelo menos se um dia inventar histórias para os meus filhos e netos, as ruas serão assim.
     Com a minha profissão de médico terei tempo para inventar histórias para contar aos meus filhos? Talvez não tenha de me preocupar muito com isso, tive um avô que fez isso para mim, penso que todos os avós fazem o mesmo.
     Será que o meu pai terá alguma paciência para saber lidar com os netos? Mesmo contando que meu pai cumpra a sua obrigação afectiva com os meus filhos, terei de me preparar para inventar histórias para os meus netos, parece ser assim a teoria da nossa sociedade neste ano bendito de 1964: os pais dão o pão e a educação, os avós dão amor. Não, disse para comigo, um pouco irritado, ao lembrar-me da rigidez com que fui criado pelo meu pai. Ambos, pai e mãe, terão de dar educação e amor. Não pode o pai ter a tarefa de educar, nem a missão de amor é uma tarefa exclusiva da mãe. E o meu coração não pode deixar de cantar uma canção de amor: Obrigado Mãe pela sua generosidade, sinto muitas saudades suas"...........................................  
AUTORA : CELESTE CORTEZ. 

Envio contra pagamento se pedido através do email: celeste.cortez2010@gmail.com 
com a sua direção. No email deve por o título LIVRO - O MEU PECADO. 

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