sexta-feira, 25 de março de 2016

poeta - JOÃO COELHO DOS SANTOS - SONHEI COM CRISTO

JOÃO COELHO DOS SANTOS *

SONHEI COM CRISTO
  

Num sonho, muito distante, voei
Para bem longe, no tempo e no espaço.
Com bordão de viagem e cabaça de água
Peregrinei por essas terras além.
Meus passos me levaram até Jerusalém
E pude sentir a frescura
Dos palmares de Betfagé,
Tocar um fresco fio de água
Que jorrava da fonte de Siloé.

Segui às torres Hípica, Mariana e Farsala,
Ao Pátio dos Gentílicos,
Ao Hiéron, a casa de Jeová,
E olhei ao redor, na Torre Antónia.

Mercavam-se brocados da Babilónia
E, no Templo, vi o Messias de varapau,
Zangado deveras, a escorraçar os vendilhões
E vi  mercadorias aos trambolhões.

Enquanto um vento triste visitava ruínas
Ao redor de El- Kurds, da Jerusalém,
Vi a Torre das Fornalhas, a Porta de Efrain
E mesmo o túmulo de Raquel, perto de mim.

Reconheci  Osanias, rico saduceu,
Membro de sanedrim, de joias finas e véu,
E Cláudia, mulher de Poncius,
Que costumava subir, envolta em seu manto,
Ao terraço dessa Torre para ouvir, com espanto
E encanto, pregar o rebelde,
O Rabi Jesuchoa Natzarieh.

Próximas, vi Magdala, Joana, e outra Maria,
Susana e a mulher do poço de Samaria.

Uma praça escaldava ao sol.

Ouvi o povo eufórico a exultar
Porque o Rabi Jesuchoa,
Primo de Iokanan, que antes O batizara,
Fora preso em Betânia.

Vi atarem-Lhe os pulsos com uma corda
E Sareias a acusar que O ouvira dizer
Descendente da Casa de David, ser,
E que destruiria o Templo e a Lei,
Embora deste mundo não fosse Rei.

Nesse meu sonho ainda vi
Que, por ter ficado em silêncio, pasmado,
Também às acusações de Hannan,
Foi violentamente esbofeteado.
O meu reino não é deste Mundo!
“Eu sou a verdade e a vida” – ouvi.
Vertia tédio o magistrado Poncius Pilatos,
Que fora prefeito de Batávia,
Disse não Lhe ter achado culpa
E que não passava de um simplório primário
Cujo crime singelo era o de ser visionário.
Escolhei, clamou, quem quereis que liberte,
Jesuchoa ou Barr – Abbas
Que matou um romano legionário
Nas proximidades de Xistus?

Vendilhões e prostitutas gritavam
Por clemência a Barrabás.
O ansião Rabi Robão solene afirmava:
Antes sofra um homem que um povo!
Pilatos, o sanedrim, as mãos lavou
E, crucificar Jesus, então mandou.

Porque se dizia Rei e os reis são coroados,
A ornar-Lhe a cabeça, por escárnio
Uma coroa de espinhos do nabka,
Instrumento de doloroso martírio,
Lhe colocaram até sangue escorrer,
Como agravo para tão grande ultraje,
E iniciou o longo e sangrento Calvário.
Foi de sangue o suor de Cristo e seu sofrer.

Numa fenda da rocha se ergueu
A cruz do nazareno.
Ladeiam o “perigoso” Jesus, no momento fatal,
Outros condenados ao martírio da cruz:
Um ladrão de Betebara, estrada de Siquém
E um temível assassino de Emath.
Saciaram os judeus um ódio sacerdotal.

No erguer da cruz mais se rasgaram
Suas inocentes e divinas carnes.
Terá sido a suprema dor do meu Senhor.
Cristo recusou o vinho de Tharses,
O vinho da misericórdia,
Que O poria inconsciente, sem dor.

Legionários descansaram, ao sol-poente,
Lanças de pontas faiscantes.
Pareceu-me ver uma mágoa
Misericordiosa no olhar de Cristo.

“Pai, porque me abandonaste?
Perdoai-lhes, que não sabem o que fazem!”

Um cão abriu a goela e ganiu.
Um grito varou o ar, tremeram astros no céu!
Choros e lágrimas de Maria morriam no pôr-do-sol
Palpitaram estrelas e lua…
Soltaram-se gemidos de contrição
Que fizeram gelar meu coração!
Na cruz arrefecia o maior amigo do homem
E o povo divertia-se, ria e aplaudia,
Enquanto se apagava a mais pura voz do amor.

O Rei dos judeus e de todos os pobres,
Morreu no madeiro dos condenados,
Enquanto impávidos, os legionários
Jogavam as vestes do Santo aos dados!
Na hora do desmaio empalidecido das estrelas
José de Ramata reclamou o corpo para o sepultar.
Ao terceiro dia, Jesus ressuscitou.

Uns O escutaram e O seguiram,
Outros O perseguiram e assassinaram.
O Emanuel pagou com a vida a sua rebeldia
E o mundo não mais foi igual a partir desse dia.
Ateou-se o fogo nas searas servis,
Adormecidas e escravas
Dividiram-se pai e mãe, filho e filha,
Na liberdade de O aceitar ou rejeitar.
E, mais do que nunca, não se entendem
Saduceus, soforins, escribas e fariseus.

Perdido no tumulto dos meus pensamentos,
Estremunhado e cansado, acordei.
No meu sonho, testemunhei
A Páscoa da Paixão do meu Senhor.
Por nos amar de mais, Jesus
Foi morto, como ladrão, na cruz
E nós, não O sabemos amar
Como Ele nos amou!
Na clareira luminosa da minha Fé
Sonhei e mais um horizonte se projetou.

do livro
70 - SETENTA - 70
 lançado dia 23 de junho de 2014 
nos Paços do Concelho de Lisboa
(reprodução do poema autorizada, desde que referido o nome do autor)



 * o Poeta João Coelho dos Santos,  foi proposto por mim e aceite como membro da 

ALA - ACADEMIA DE LETRAS E ARTES, PORTUGAL.

tem mais de 40 livros de poesia e teatro publicados. 

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