quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ASSALTO ÀS VIRTUDES - de Carlos Brandão de Almeida

É tema diário de telejornais, rádios e imprensa a consumação de roubos; o fogo posto de que resulta um devastador incêndio; 
a queda de uma aeronave que provoca uma mortandade; 
a explosão criminosa de um carro armadilhado e outras notícias afins.
São acontecimentos que, objectivamente, causam danos a pessoas e bens. Provocam prejuízos concretos, fisicamente mensuráveis, que sempre afectam alguém.
No entanto, nunca ouvimos ou lemos nos canais de informação notícias do tipo:
“Foi roubada a Coragem de fulano”; “Foi exterminada a Honestidade de beltrano”; 
“Foi eliminada uma grande quantidade de Optimismo de sicrano. Quem a encontrar é favor devolvê-la para o apartado...”.
Ou então: “o incêndio destruiu toda a Fidelidade do senhor tal” ou, ainda, “naufragou toda a Bondade da senhora x”.
Pois é, nunca ouvimos falar que as virtudes de alguém tenham sido alvo de assaltos ou de outra agressão qualquer. Claro que as virtudes não constituem património material. Economicamente são irrelevantes. Mas as virtudes são valores morais tão valiosos que podem dignificar e dar dimensão humana exemplar a uma pessoa.
No entanto, todos sabemos que, diariamente, alguém é espoliado da sua honradez quando aceita participar em negociatas indignas que maculam a honestidade deste ou daquele cidadão, que sucumbe perante a oferta de grandes quantias de dinheiro ou outros favorecimentos ilícitos.
Diz-se que todo o homem tem o seu preço. É o preço inquantificável da perda da virtude. Quem se corrompe desmerece a virtude original. Era afinal um virtual virtuoso, passe a expressão.
Quem verdadeiramente conquista uma virtude, jamais a perde.
Quando o jovem funcionário judicial ignorou o pedido da tutela para arquivar um processo de fraude porque o acusado é meu amigo e se lembraria dele depois fê-lo porque tinha um compromisso sério com a própria consciência.
E quando o superior lhe pediu satisfação ele argumentou que o facto do acusado ser seu amigo não o poderia isentar da responsabilidade dos seus actos. E que somente a falta de provas acusatórias poderia absolvê-lo, o que não foi o caso.
Se esse virtuoso funcionário não tivesse firmeza de carácter a sua consciência acusá-lo-ia de não ter conseguido resistir ao assalto de corrupção de que fora alvo e, por isso, teria sido despojado dos bens tão preciosos como são a fidelidade e a honestidade.
Sempre que alguém permita que as suas virtudes sejam compradas ou roubadas, esse alguém ficará mais pobre espiritualmente.

Abraham Lincoln dizia que todos os homens são capazes de suportar adversidades mas, se se quiser pôr à prova o carácter de um homem, dê-se-lhe poder.


Sem comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...