terça-feira, 6 de janeiro de 2015

HOMENAGEM AO MEU PAI NO DIA DE REIS.


Na Beira, aos 50 anos
Em Carregal do Sal, em 1972, um ano antes de falecer














Tudo isto, papá, ao seu retrato pertence:
Carácter, sentido do dever, simplicidade  
Amor ao próximo, bondade, humildade,
Lealdade, justiça, honestidade


 Querido papá 

     HOJE - 6 de Janeiro de 2015 -  faria 100 anos. Um século. Mas não os fez na terra. Partiu a 23 de Novembro de 1973. Lá lá vão tantos anos. Mas as saudades continuam vivas no meu peito e fazem doer. Morrer aos 59 anos é demasiado cedo. 

     Nunca esquecerei que nesse dia, me encontrava longe, longe de si. Onze mil quilómetros de distância nos separavam e nos tinham separado durante uns anos. O papá na Europa com a mamã, eu em África com meu marido e filhas. Sei que vivia triste por não poder voltar a África, a sua doença e a pequena reforma, eram impeditivos.

      Pressenti que algo de muito triste se estava a passar, o céu parecia querer desabar em cima de mim. Estava triste e negro como triste e negro estava o meu coração. Não tive a notícia através de um pombo a anunciar que seu pai tinha acabado de falecer, num sonho triste, como o papá pressentiu a morte de seu pai. Embora sem visões, sem sonhos, o meu coração não precisou de abrir o telegrama anunciando a sua partida.
       Ficou um vazio muito grande no meu coração, um vazio que ainda hoje, passados tantos anos me faz sofrer de saudades, em muitas ocasiões da minha vida. 


Teatro que ensaiou e entrava
como actor, ainda jovem, em Portugal
     Mas hoje quero recordá-lo no dia do seu aniversário. Nasceu no dia de Reis, no dia em que se cantam os Reis nas terras de Portugal e na sua não era exceção. Foi o REI do meu coração, um rei que soube educar sem ralhar. Um Rei que deu sempre o melhor exemplo. Recordo-o a visitar a cadeia da cidade da Beira onde viveu tantos anos e levar-me algumas vezes. Dizia-me que era para o ajudar a levar os biscoitos que a mamã tinha feito para os presos. Belo exemplo.
     Recordo-o em África, a tocar o seu bandolim ou o seu violino, sabendo tão pouca música mas tinha um tocar que vinha do coração, porque sentia a música, amava o ritmo. Recordo-o naquela noite de chuva intensa - chuvas de África - a regressar encharcado e apenas com uns pedaços partidos do violino, nas mãos, porque a chuva tinha invadido a parte baixa da vivenda e rebentado a mala de porão onde o guardava. E as suas lágrimas soltaram-se, pela primeira vez, à minha frente, ainda menina e moça. E eu sofri pela sua tristeza.
     Lembro-me quando ia visitar os pobres, em grupos da Acção Católica. Recordo-o como parecia voltar a criança, cheio de alegria e felicidade,  quando finalizava uma demonstração dos grupos étnicos que ensaiava - Grupo Actor Eduardo Brazão e Solar dos Beirões. 
     Recordo-o quando fomos com o Sr. Paralta, no dia da inauguração da Rádio Pax,  fazermos um pequeno teatro, lindo, lindo, que tinha escrito para a ocasião. 
De cócoras, no meio das "mascotes" do
Rancho folclórico do Solar dos Beirões.  
Em 1927, fez a 4ª. classe com MUITO BOM... 
A 1ª.nomeação para funcionário das Finanças, colocado
em Carregal do Sal , data de 1939. Tenho outros diplomas seguintes. 
Recordo-o vestido de estudante e eu também, no carro alegórico que representava Coimbra, no dia em que a Beira fez 50 anos e como se sentiu feliz por o nosso carro alegórico ter ganho o 1º. prémio. 
Recordo, recordo como era bom para todos nós e como fazia o bem sem olhar a quem, e como fazia tudo sem dar nas vistas.  Vim a ter conhecimento que a capela da sua terra, onde o nosso Fernando esteve quando o seu corpo estava frio, tinha sido erigida com peditórios que organizou, principalmente através das cartas que enviou para os emigrantes da aldeia e da vila, que estavam no Brasil. Não sei como fez isto, se pensar na sua timidez. Ah, já sei: Pôs a timidez no bolso esquerdo e escreveu com a mão direita e com essa entregou também os donativos e, a capela, ali está, linda e grande. (Foi acabada com outros peditórios anos mais tarde). Mas o que interessa é a obra começada, com paredes, chão e telhado e isso foi feito e funcionou até muitos anos depois ser acabada.
Papá, aqui estou para lhe dizer como tenho saudades suas. Como me recordo que, por fazer anos no dia de Reis, íamos primeiro com um enorme grupo da Acção Católica e mais tarde da Rádio Pax, cantar a diversas casas, começando pela do Governador da Beira, pedindo para os pobres. Acabava a festa na sua casa papá, onde havia uma mesa posta com o tradicional bolo rei e outros bolos que a mamã confeccionava para festejar o dia, o seu dia. 
E, acabo de me recordar, que numa visita ao Carregal, há uns anos, um senhor, que era de Alvarelhos, me confidenciou que o que sabia de leitura e escrita, tinha sido o papá a ensiná-lo, quando ambos eram crianças. E que tinha ensinado outros que mais tarde vieram a ser comendadores. Muito me orgulho. O senhor, de que não me recordo o nome, pai da Zeza e da Mélita que tem uma loja de modas no Carregal, foi de certeza encontrar-se consigo no Céu. Também era boa pessoa. 


Hoje, por ser um dia especial, o dia de Reis, o dia do nascimento do meu querido pai, o meu primeiro Rei,que partiu para o Céu, daqui lhe envio um açafate de camélias, cada pétala beijada pelos filhos Celeste e Nelson e pelos netos e netas.     

     
Querido papá, continue a festa que os Anjos lhe prepararam no Céu. Até sempre.  







                                  
                                   




  


















3 comentários:

Sami disse...

Uma bela homenagem ao Avo.
Partiu muito cedo, nos dias de hoje seria possivel viver alem dos 100 anos.

Angela Fonseca disse...

Bela homenagem. Nossos amados que partem para a vida espiritual não estão mortos, apenas vivem em outra dimensão e também no nosso coração, através da memória. Encerram-se as existência, a vida, porém não termina nunca. E, ao final, todos nos encontraremos na casa do Pai. Beijos, Angela

Celeste Cortez disse...

obrigada pelo amável comentário A>ngela. Grande abraço

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