quinta-feira, 19 de junho de 2014

CONFIANÇA MÚTUA por Carlos Brandão de Almeida

Confiança mútua

O
  João Tadeu era um fervoroso e fanático adepto de um grande clube de futebol lisboeta. Assumia-se como um profundo conhecedor do fenómeno desportivo. Mas não era. Não passava de um pífio treinador de bancada.
Uma vez, a sua equipa iria defrontar uma congénere do Porto. Jogo grande, naturalmente gerador de imensa expectativa. Previa-se uma atmosfera explosiva entre os apaniguados dos dois emblemas.
Como era inevitável, o João não iria faltar ao escaldante prélio.
A mulher propôs-lhe:
- Ó João, eu não sou propriamente uma devota do pontapé na bola mas gostaria de ir contigo. Que mais não fosse por ir dar um passeio e gozar as delícias de um dia solarengo.
Respondeu-lhe o marido:
- Nem penses, Isaura. O ambiente está muito pesado. É de admitir que surjam desacatos que te poderiam envolver. Não é aconselhável ires, podes crer.
- Mas, ó João, se se prevêem desordens, o melhor é tu ficares em casa e não te ires meter em rixas com arruaceiros.
- Não vai haver problema, eu sou homem, tenho mais força e sei-me defender. Quem se meter comigo leva! (onde é que eu já ouvi isto?)
A cara-metade aquiesceu e o marido lá foi assistir ao jogo.
Perto do anoitecer o João regressou a casa. Vinha desalentado pois o seu clube não conseguira vencer. Mas o pior era o deplorável estado físico que apresentava: um olho inchado, um pronunciado hematoma na cabeça e coxeava, o pobre!
- Ó homem, o que foi que te aconteceu? Tiveste algum desastre com o carro?
- Não, Isaura. Eu bem te tinha dito que poderia haver borrasca. E houve mesmo. Não calculas a peixarada!. Pancada de ferver. Em dada altura, um tripeiro mais assanhado ofendeu o meu glorioso clube. Achas que eu me ficava? E chamei-lhe morcão e disse-lhe que tinha fuça de calhau. E fui-me a ele. Não calculas como o gajo ficou: feito num oito, pois claro!
- Mas, pelos vistos tu também vens bem aviado, ó valentão! Afinal, como é que te magoaste?
- Olha, quando desancava o idiota, escorreguei e bati com a cara numa cadeira do estádio. Acidentes acontecem…
Passados dias, a comadre da Isaura disse-lhe que o marido lhe contara que o João tinha levado uma tareia no futebol. E se não levou mais foi porque fugira  a sete pés, acrescentou!
E foi assim que a Isaura soube que o marido lhe tinha mentido

Esta historieta pode ilustrar a triste situação em que vivem certos casais: em mentira permanente. Muitos outros cenários poderíamos construir para exemplificar esta realidade.
No caso vertente, o João quis enganar a esposa, alterando a verdade. Não teve coragem para enfrentar o possível sarcasmo da sua mulher. Mentiu, o falso!
Um casal que se ama deve viver sempre dentro da verdade.
Uma relação amorosa, genuína, impõe o respeito pela verdade e preocupa-se em preservar permanentemente a confiança mútua.

                                                                                                              Carlos Brandão de Almeida



2014.06.06

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