domingo, 9 de fevereiro de 2014

Extracto do romance O MEU PECADO, 2ª. edição.




Quantas vezes aquela enorme e forte muralha, teria sido confidente de promessas de namorados quando andavam pelos jardins do Beira Terrace, onde havia um restaurante do mesmo nome! E quantas gerações ali se divertiram no carrocel e em outras festividades! Era este o ponto de encontro de muitas famílias no seu passeio domingueiro. Ali batiam as ondas, parecendo zangadas, investindo furiosas sem ninguém saber o porquê da sua zanga. Querendo mostrar a sua imponência, as ondas subiam num frenesi de espuma branquinha, a uma altura que transbordava e apanhava alguns desprevenidos. Quantos carros foram salpicados pelas suas águas, como se de uma cerimónia batismal se tratasse! Como tudo tem um fim, as ondas, cansadas, começavam a amainar, até acabarem em quietude, como que a admirar as pessoas! Talvez curiosas, principalmente quando por ali andavam crianças, acompanhadas de seus pais! 
Tentámos brincar com o pequenito que, agarrado à mão do pai, não despegava o olhito da rebentação das ondas, mas ele não nos ligou, tão preocupado parecia estar:
- Não tenhas medo, filho, as ondas nunca saltarão cá para fora. Mesmo que as águas atirem para cá uns espirros ao baterem na muralha, não nos farão mal, não temos de fugir, Fernandinho.
- Mas porque fazem tanto barulho, pai?
- Estão zangadas.
- Zangadas com quem, pai?
- Estão zangadas... zangadas com o mar, filho.
     
- Porquê pai?
- Porque, porque, porque é assim mesmo, elas querem ter autonomia e o mar quer mandar nelas – respondeu-lhe o pi, com certeza sem saber o que mais dizer. Foi o que lhe tinha vindo à cabeça. As crianças fazem cada pergunta!...
- O que é autonomia, pai?
- É…É… É isso, filho.
- Isso quê, pai?.
 - Autonomia é liberdade. Elas querem ter liberdade.
- E têm razão, não têm, pai? Toda a gente precisa de liberdade. Até as ondas, não é, pai?

A cidade da Beira era encantadora, pacata… (continua no romance O MEU PECADO)


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