quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rosa Lobato Faria

ROSA LOBATO FARIA (Lisboa1932-2010)


Afirmas que brigámos. Que foi grave. 
Que o que dissemos já não tem perdão.
         Que vais deixar aí a tua chave
         e vais à cave içar o teu malão.


Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
        E o sol que dá no quarto de manhã? 
        É meu o teu cachorro que eu tratava?
        É teu o me
u canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?
De quem é esta briga? Não me lembro.


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