domingo, 6 de janeiro de 2013

AQUI NA TERRA CHORA-SE DE SAUDADE


AQUI NA TERRA CHORA-SE DE SAUDADE



 Aqui na terra chora-se de saudade os que partiram. Teremos sempre saudades deles por mais anos que passem. Quantas vezes com palavras ditas das mais diversas formas, conversamos com esses entes queridos que um dia partiram.
 Hoje não poderia deixar de conversar com o meu pai que me deixou depois do seu regresso de África, para onde embarcou em 1947. E sem se despedir de mim, nem de nenhum dos filhos que ele tanto amava, partiu em Novembro de 1973 numa viagem sem retorno .     
Papá, hoje dia 6 de Janeiro, dia de Reis, dia do seu aniversário, era habito um grupo de jovens e outros menos jovens, incluindo-se a si, a mim, ao Tó e aos Padres da Rádio Pax da Beira, irmos cantar os Reis a casa do Governador, do Bispo da Beira, de pessoas da  Acção Católica e acabarmos antes da meia noite na sua casa,  onde a mamã nos recebia com a mesa repleta de todas as iguarias  possíveis, incluindo uma canjinha para aquecer o coração como ela dizia, celebrando o seu aniversário com bolo rei , licor, vinho do Porto, whisky e as tradicionais cantigas de parabéns ao aniversariante.  
 Hoje,  como sempre me ocorreu,  em cada dia que passou, recordo os seus olhos límpidos e serenos, a paz da sua voz que nunca se exaltou, a fé inabalável mesmo quando à sua volta tudo parecia desmoronar, o seu ensinamento do bem sem precisar de palavras, o seu espírito tolerante e generoso.   
Que melhor exemplo me poderia dar enquanto fui jovem, do que levar-me consigo à prisão a visitar os que ali estavam, levando-lhes uns simples biscoitos feito pela mamã que lhes oferecia com amor mas sem alardes?
Hoje recordei-o das duas vezes que o vi chorar: A primeira quando num temporal nocturno, mal acordado descendo as escadas até à cave da casa que habitávamos, só encontrou pedaços do violino que tinha comprado na sua juventude. A outra, quando foi à caixa do correio e encontrou um telegrama a anunciar que tinha falecido o seu pai. Porque pai, é isso, o espelho onde a criança se vê crescer. Esse espelho tinha desaparecido para si. Também desapareceu o meu espelho, há mais de trinta e nove anos. E quando nos desaparece alguma coisa muito importante, aqui na terra chora-se.
Se por ser adulto é feio chorar, vou pedir a Deus para voltar a ser pequena durante um bocadinho, porque agora, neste momento, quero chorar o pai que perdi. E se por ser adulto é feio rir alto, vou pedir a Deus para voltar a ser pequena porque hoje quero rir muito papá, a contar-lhe histórias interessantes da minha vida. Depois voltarei a crescer, para prosseguir com rectidão, com honestidade, com justiça os caminhos que me ensinou a trilhar.  
Bem haja papá. Sei que aí no Céu terá um banquete com bolo-rei e estarão presentes as pessoas que amava, os que partiram antes e os que partiram depois, como a mamã e o nosso Fernando meu querido irmão, a sua querida nora Lourdes, as suas irmãs, cunhadas e cunhados. Um dia, também eu estarei convosco. Até lá chorarei de saudade algumas vezes. Porque aqui na terra chora-se de saudade.


Bolo Rei (foto da net)
E já me ia esquecendo: a mesa está posta para o grupo do costume. Que eles tragam a garganta afinadinha para connosco lhe cantarem os parabéns. O nosso grupo é grandinho: Eu, o Tó e as nossas filhas, genros e netos, o Nelson, filhos e neto. O tio António e a tia Lurdes e aquela grande quantidade de primos que o papá sabe. 

PARABÉNS A VOCE,            

Tudo isto, papá, ao seu retrato pertence:


Carácter, sentido do dever, simplicidade,

Amor ao próximo, bondade, humildade,
Lealdade, inteligência, honestidade

2 comentários:

Sami disse...

Esta lindamente escrito.
Tenho pena de nao me lembrar muito de como ele era.

Celeste Cortez disse...

Já eras crescidinha quando ele faleceu em 1973. Viste-o pela última vez em Agosto de 1970, tinhas 10 anos. Não te lembras de estarmos na cozinha, mesa grande de madeira, forno a lenha, e andares a brincar na rua com a juventude de Alvarelhos? A Luisinha, como não a deixavam brincar, por ser pequenita, veio para a cozinha, pegou numa faquita e a cortar pão (parece-me) ia dizendo: meda para a Sami, meda para a Sami... palavra que acabara de aprender na rua... E pelos vistos tinhas sido a culpada de ela não entrar na brincadeira!

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