terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Consciência limpa, de Carlos Brandão de Almeida


 

CONSCIÊNCIA LIMPA
 
Mais um artigo do meu amigo Carlos Brandão de Almeida. Como sempre, com um final que dá para pensar. Não devemos menosprezar os avisos sensatos e prudentes. Pautar a nossa consciência pela honradez, pelo jogo limpo.

 
Um grupo de três caminhantes jornadeava havia já um ror de dias, vencendo montanhas e florestas. Entretanto, os mantimentos acabaram não encontrando eles, no meio daquela imensidão da natureza, sítio onde se pudessem reabastecer. Com os estômagos vazios, procuraram desesperadamente qualquer forma de alimento sem a qual sucumbiriam.

Numa manhã soalheira, avistaram uma cria de javali que por ali, despreocupadamente, saltitava.

Logo imaginaram, no pequeno cerdo, a gostosa refeição por que tanto ansiavam. E, rapidamente, prepararam as armas assassinas.

Um deles, porém, adverti-os para o perigo de matar o imberbe animal pois seria de esperar uma violenta retaliação por parte da restante vara.

- Tenham cuidado! Olhem que o javali selvagem é uma fera muito perigosa.

Os dois outros caminheiros, todavia, ignoraram a advertência do companheiro. E como a fome já lhes toldava o raciocínio, decidiram mesmo executar a sentença. O condenado foi então executado e serviu de opíparo manjar aos dois carrascos.

Saciados da fome, os regalados comensais deitaram-se e adormeceram profundamente.

O que não tinha participado no banquete, com a barriga vazia, estava meio entorpecido quando ouviu um tropel de animais. Receoso, subiu a uma árvore e dali viu, angustiado, uma vara de javalis rodear os dois companheiros que dormiam o sono dos justos. Destacou-se o animal mais corpulento – seria a mãe da cria – que se aproximou dos dorminhocos e cheirou-os na boca. Facilmente farejou o cheiro da carne do seu filhote. Furiosa, trespassou-lhes de uma só dentada as artérias carótidas e, com os outros javalis, esquartejaram selvaticamente os corpos dos homens.

Horrorizado com aquele sanguinário espectáculo, o caminheiro sobrevivente só muito mais tarde desceu da árvore e se afastou o mais depressa possível. Com fome, mas vivo!...

A sua ponderação, afinal, salvara-lhe a vida.

Na vida, desprezamos algumas vezes, com arrogante sobranceria, as sentenças sensatas, os conselhos prudentes e cometemos, por isso, erros que nos mancham a consciência, sujando-nos interiormente.

Essa sujidade, mais tarde ou mais cedo, poderá vir a marcar o nosso carácter e a revelar-se no nosso comportamento, maculando as relações com os outros.

Até que um dia podem surgir uns revoltados javalis…

 

 

                                                                                  Carlos Brandão de Almeida

 

 

2012.07.25

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