sábado, 28 de abril de 2012

POEMA: TESTAMENTO,
de Alda Lara
(gostaria de tê-lo escrito. Costumo dizê-lo
em sessões de poesia)

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...





E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...





Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

     E os livros, rosários meus
                          Das contas de outro sofrer,
                               São para os homens humildes,
                     Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

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