quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AS ESTAÇÕES DA VIDA - ou o julgamento do nosso semelhante


As estações da Vida

O choro pode durar uma noite, mas a alegria
vem pela manhã.
(Salmos 30.5)

Naquele dia, a putativa tertúlia que reunia nos finais das tardes, enquanto sorvia um chazinho de camomila e tragava uma loira torrada, barrada com pouca manteiga – a terceira idade tem que defender do esconjurado colesterol! – discutia animadamente as matizadas facetas do comportamento humano.
Uns opinavam que, quando geneticamente o homem é marcado com a chancela da insociabilidade, esse estigma perdura, indelével, ao longo da sua existência.
Outros, pelo contrário, eram de parecer que a conduta dos homens sofre mutações no decorrer da sua vida. Metamorfoses essas que é mister considerar.
Afinal: como deveremos avaliar os outros?
A maioria de nós peca frequentemente por, primeiro, julgar os outros, segundo, julgá-los mal.
Em regra, baseamos a apreciação ao nosso semelhante na análise de factos circunstanciais ou em observações aligeiradas. É um julgamento injusto por tomarmos a parte pelo todo.
Uma sentença imparcial imporá o conhecimento do indivíduo na sua essência integral, não se restringindo a partes isoladas do seu comportamento.
Estávamos nestas congeminações quando um dos componentes do grupo, defensor da tese mais liberal, contou uma historieta que, na sua opinião, configurava a atitude que se deve assumir quando ousamos avaliar os outros.
Reza assim:
Um homem tinha quatro filhos. Ele queria que os seus filhos aprendessem a não julgar as coisas e as pessoas de modo apressado. Para exemplificar o que pretendia, mandou cada um dos filhos numa viagem para observar uma pereira que tinha plantado, há anos, numa sua herdade.
O primeiro filho foi lá no Inverno; o segundo, na Primavera; o terceiro, no Verão e o quarto, mais jovem, no Outono.
Quando o último voltou, o pai reuniu-os numa confraternização familiar e pediu que cada um descrevesse a árvore que tinham observado.
O primeiro filho disse que a árvore era feia, torta e despida.
O segundo filho não concordou com o primeiro e disse que a pereira era bonita pois estava recoberta de botões verdes e cheia de folhas e promessas.
O terceiro filho discordou dos dois. Disse que a pereira estava coberta de flores que tinham um cheiro agradavelmente doce. Era tão bonita que ele diria mesmo que era a árvore mais graciosa que já tinha visto.
O último filho também discordou de todos os seus irmãos. Relatou ao pai que a árvore era bela e pujante e estava carregada e arqueada, cheia de fruta e de vida.
Os filhos, quiseram saber qual deles fizera a apreciação mais correcta.
O pai então explicou-lhes que todos estavam certos, porque haviam observado apenas uma estação de vida da árvore. E acrescentou que não se pode julgar uma árvore, ou uma pessoa, apenas por uma estação e que a essência de uma Vida só pode ser medida pelo seu conjunto, quando todas as estações tiverem sido consideradas.
Se nos ficarmos pelo Inverno, perderemos a promessa da Primavera, a beleza do Verão e a expectativa do Outono.
Não devemos permitir que uma faceta menos boa de alguém destrua a beleza e o encanto das outras qualidades. Não é justo julgar a vida apenas por uma estação difícil.


Carlos Brandão de Almeida


2010-07-07

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