sexta-feira, 3 de setembro de 2010

ADEUS MENINO, ADEUS










A despedida é sempre triste. Mas a tristeza parece regulável, consoante a quem dizemos adeus.






Fui hoje, pela ultima vez, dizer adeus a alguém que marcou a minha vida positivamente. Nascemos primas, mas com muitos anos de diferença. Quando eu nasci, ela poderia ter sido minha mãe. Era prima direita de meu querido pai. Pela amizade, meus pais convidaram-na e ao seu irmão mais velho (José Silvestre Cortez,que se despediu de nós a 17-04-2000), para meus padrinhos de batismo. Mais tarde, vim a casar com o irmão mais novo.
A Celeste Augusta Cortez Silvestre Portela, passou a ser prima-madrinha de batismo-cunhada. E amiga.
Celeste Portela viveu uma longa vida - 87 anos - É certo que poderia ter vivido mais. E poderia ter vivido os últimos tempos, sem alzheimer. Mas não sucedeu. Dizer adeus é triste. Deixa sempre saudades. Mas é compreensível esta dor, perante alguém que viveu 87 anos.

MAS TU HÉLIO ?
Mas tu Hélio? Menino de 11 anos, que levaste uma bala que não te era destinada, não tinhas o direito de desaparecer tão novo. Teus pais tinham traçado esperanças para o teu futuro. O que querias ser Hélio? Médico, enfermeiro, futebolista, polícia... não, eu sei que não, Hélio.
Regressavas da escola. Teu corpo jaz, inerte, na rua, coberto por uma capulana, que mão anónima te ofereceu - provavelmente Mãe desconhecida, já que a tua mãe não estava ali para te tapar.
Teus olhos fecharam-se para sempre. Não poderás ver os livros que jazem do lado esquerdo do teu cadaver. Nem te queixarás da enorme ferida na cabeça que fez empoçamento de sangue no chão, no lado direito do teu corpo. Não mais jogarás futebol com os teus amigos do bairro. Não subirás às mangueiras, aos cajueiros. Xi, Hélio, parecias um gatinho a trepar. E punhas algumas mangas amarelinhas no bolso das calças. E a tua mãe zangava-se, Hélio, porque muitas vezes rebentavas os bolsos. Isso não se faz, Hélio, dizia-te ela. Mas eram brincadeiras próprias da tua idade. Agora, a mãe vai sentir saudades de dizer: Hélio, não subas às árvores, olha se rebentas os bolsos, as calças ficam velhas. E não tenho dinheiro para outras. Hélio.
Não mais verás o por do sol tão belo.
Não verás o amanhecer com aquele sol que se abraçava a ti e te acompanhava até à escola e esperava por ti para te acompanhar no regresso.
Não sentirás o cheiro da terra molhada, quando a chuva caia e tinhas de correr.
Hélio, não verás o dia de amanhã, com a paz que voltará para todos. Porque todos são irmãos. Tem de haver paz, em teu nome, em nome de todos.
Amanhã virá a paz. E não estarás cá para a viver.

Custa muito dizer adeus a um menino da tua idade. E custa mais quando partiste inglóriamente. Adeus Hélio.
3-09-2010 Celeste Cortez
7-09-2010 - EU NÃO DISSE, HÉLIO? Em Moçambique tudo vai voltar à normalidade, e tu não estás para saboreares o pão que te faria crescer! Beijito Hélio.

1 comentário:

Chongolita disse...

Muito comovente, amiga Celeste... Cada palavra soa a lembranças, a dor, a crueldade na perda de uma vida que se afastou como o fumo. Apesar de triste, gostei desta sua homenagem. Um beijinho doce para si e maridão.

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