domingo, 22 de agosto de 2010

DESPEDIDA DE MOÇAMBIQUE - I -



ESTA VIAGEM ERA A DESPEDIDA DE MOÇAMBIQUE!


Cada passageiro teve direito a despachar apenas os vinte quilos que a lei permitia. Assim, sem contemplações por uma vida desfeita, onde tantos anos de poupanças e sacrifícios monetários teriam de ficar para trás.

Sem poderem sequer levar as melhores recordações: quadros pintados ao longo dos anos, mantas de retalhos que teriam sido feitas com tanto amor nos longos dias de verão, livros que lhes teriam sido oferecidos por pessoas que, nunca mais veriam, mas que iriam recordar para sempre!


Esta viagem era a despedida de Moçambique!


Não podendo despachar mais dos que o permitido por lei, por isso, na mão de cada um deles, tantos embrulhos, caixas de cartão, malinhas, sacos!

Logo à entrada da sala de espera do aeroporto de Lourenço Marques, fomos avisados pelos altifalantes que o máximo permitido em mão, era um volume que coubesse no compartimento que se situava por cima da cabeça dos passageiros.

Recordo-me que me agarrei com força ao saco de tecido, que servira para a fábrica de moagem transportar farinha pra os panificadores e para os lojistas do mato, e eu enfeitara com uns retalhos de tecido e uns bordados com linhas grossas.

Como poderia embarcar sem levar as nossas duas almofadas e os dois cobertores? Quando chegassemos a Portugal, sem família, sem amigos, sem emprego, como poderia comprá-los?

Olhei à minha volta e reparei que, como eu, todas as pessoas tinham a seu lado alguns volumes que seguravam como se ali estivessem depositadas as mais preciosas jóias do Mundo.

Nessa altura, chamaram para embarque e em fila seguimos para o avião, num silêncio que poderia ser cortado com uma faca. Sem querer, pensei num enterro. Pelo meu corpo perpassou um arrepio que me fez gelar. No Búzi, tinha deixado o corpo de minha mãe. Em Vila Pery, o de meu pai. Porque é que as pessoas de quem gostamos não nos acompanham toda a vida? Ou pelo menos enquanto precisamos delas?


Parte do capítulo XXIII - extraído do romance O MEU PECADO, registado na SPA sob o nº. 24698 em 25-09-2006. Todos os direitos reservados.


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Autora: Celeste Cortez - endereço electronico: celeste.cortez@hotmail.com

1 comentário:

Tânia Jorge disse...

Lindo Celeste. Lindo e triste...Um "texto" que ouvi com palavras semelhantes desde pequenina!

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