quarta-feira, 21 de julho de 2010

MÃE PRETA










Num dia longíncuo, numa terra bonita onde o sol nos acordava manhã cedo, minha mãe mandou-me um recado de amor pelo meu pai: se eu arranjasse uma pretinha, uma macaíaia para a minha filha mais velha,a Sami, bebé de seis meses,não precisaria de meter a menina no Infantário que, apesar de ser bom, as crianças em convívio pegam o sarampo, a varicela, as gripes umas às outras. É claro que não levei tempo a responder que as crianças quando convívem, também se tornam mais sociáveis, aprendem a partilhar (mesmo às vezes chorando: este brinquedo é meu!) comem melhor porque estão ao despique (olha Sami, a Joaninha já comeu a papa toda!). E de pequeninas começam a cultivar um sentimento muito especial para toda a vida: o sentimento da amizade.


Meus pais moravam no prédio do Conselho de Câmbios, por meia parte estar alugada à Junta de Comércio Externo, e meu pai ser funcionário destes serviços. Junta de Comércio Externo, onde os comerciantes iam para obterem os boletins de exportação (as madeiras: Pangapanga, Jambire, etc. eram exportadas para a Europa. Fruta, (a melhor é que se exportava) girassol, também madeiras, etc. a exportação era mais para o Malawy, Rodésia e África do Sul.


E quanto aos boletins de importação? Claro que se importava de Portugal Continental (a água de Lisboa, que era vinho!), e de tudo o que Moçambique precisasse e houvesse ou se fabricasse em Portugal, mormente matéria prima. Também se importava da Africa do Sul, dos países limítrofes.


No final dos anos 50 e anos 60, Moçambique começou a ser cada vez mais auto-suficiente, com montagem de fábricas. Só na Beira havia fabricas de: sabão, de cabos eléctricos, (onde meu marido entrou como chefe de laboratório de ensaios e veio a ser Director de Produção), óleo, cerveja, ( a nossa cerveja Manica, eu não bebia, mas era famosa!) fábrica de pregos, tintas.


No Dondo: a Lusalite, administrada pelo famoso Engº. Jorge Jardim e a Fábrica de Cimentos. Até Fábrica de Açucar havia em Mafambisse!


O que é que não havia na Beira? Tudo o que era preciso. Até lindas praias:
Da Praia dos Pinheiros, perto do Grande Hotel, prolongava-se até ao Savane ou até para além disso, mas eu só conhecia até ali.
Na Beira até havia bares, com cantores, cantadeiras, com nomes pomposos como: Moulin Rouge, ali perto da estação dos caminhos de ferro e da Ponte do Chiveve. O Primavera e o Campinho, mais atrevidos, dizia-se à boca pequena que não era só para noites de fados...
O distrito de Manica e Sofala, tinha de tudo. No distrito do Chimoio: a Sociedade Algodoeira de Portugal, (Soalpo) a S.H.E.R. (Sociedade Hidro-Eléctrica do Rovuma) para aproveitamento das barragens do Mavuzi e da Chicamba, para fornecimento de energia à Africa do Sul e à cidade da Beira.
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E foi neste pequeno paraíso, onde também havia problemas, e quem nunca os teve não sabe o que é viver!... paraíso pincelado com essas cores que só a África proporciona, que eu tive a sorte de encontra LINA, pela mão de um empregado de minha mãe. Era ainda pequenina, talvez uns doze anitos, e seria a primeira vez que ia aprender a pôr a chuchinha a uma bébé, que iria andar com o carrinho quando a menina choramingasse, que iria brincar com ela quando a Sami crescesse. Sua tez parecia luzir, iluminada por dois olhinhos muito abertos que parecia querer aprender português não só com os ouvidos mas também com os olhos! Seu nome era LINA, só Lina, nada mais.
Um dia pensei que seria bom nunca nos separarmos das pessoas de quem gostamos. E a única maneira, é imortalizar as pessoas. Da Lina teria algumas fotos em conjunto com a Sami, mas as nossas viagens de Moçambique para a África do Sul, fez com que enviássemos algumas recordações por alguém conhecido que ia para a Rodésia. Fotos grandes, das nossas filhas pequenas, fotos lindas, lindas, que só poderia ter sido tiradas por alguém que tinha a arte dentro de si. Tinham sido tiradas por um querido sobrinho a quem foi ceifada a vida em condições trágicas: O JORGE DE CASTRO QUADROS.
Quando meu marido foi propositadamente da Africa do Sul à Rodésia para ir buscar as fotos e algumas pequenas recordações, 2 candieiros de cabeceira, alguns quadros de valor estimativo, disseram-lhe que não tinham chegado ao local. Pena. Não posso assim recordar Lina olhando para uma foto! Terei de a imortalizar de outro modo...


E ASSIM NASCEU A IDEIA DE ESCREVER O ROMANCE .... MÃE PRETA.

A autora, Celeste Cortez





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